outubro 10, 2003

A PALA

"A Ordem dos Arquitectos manifestou a sua vontade em ocupar o Pavilhão de Portugal", cito de memória algo lido há uns dias. Dadas as diferenças entre o discurso oficial, politicamente correcto, e o que já ouvi à boca pequena a muitos dos arquitectos da chamada "escola de Lisboa" (onde cabem, por exclusão, todos os que não se sintonizam com a "escola do Porto"), pergunto-me se o anúncio não passará de publicidade encapotada à actual equipa dirigente.

Sobre o Siza, já ouvi de tudo. De bestial a besta. Eu, que até nem sou arquitecto, prefiro ver a obra e decidir por mim. E se tirarmos a citada pala (e só a pala) - que, justamente, se constituiu como um ícone do seu autor (ainda que eu considere que a asa do engenheiro que a projectou bateu ainda mais alto) - a obra que se construiu em Lisboa saída do atelier do luso prémio Pritzker, está ao mesmo nível da taveiradas que a esquerda BCBG se entreteve tanto a desdenhar nos anos 80/90. Ou seja, está mal integrada, destroi espaços em vez de os unir, apresenta pormenores piores que maus. É um bocado como os quadros que os novos-ricos põem nos salões dos T10 recentemente comprados: com uma assinatura suficientemente grande para se ver ao longe e de dimensões generosas. "Já viu o meu novo Siza?"

Um dia, perguntei a um seu colega, igualmente portista, esquerdista e elitista, se não havia uma cabala dos arquitectos do Porto para, propositadamente, projectar mamarrachos para a terra dos mouros. Levou a mal. "Já olhaste como deve de ser para as traseiras do Grandela? Já viste os pátios do Chiado? O que me dizes da cloaca do Metro no Largo do Chiado?" Continuou a levar a mal.

Quando ao Pavilhão de Portugal: a ser uma obra grandiosa, porque é que não encontram ocupação para ela? Deve ser como a Torre de Belém - de tão monumental, só serve para os turistas.

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