novembro 30, 2003

ANGOLA (I)

Luanda recebe-nos às escuras, há dois dias que está assim, dizem-nos, oficiosamente parece que a falta de chuva na bacia do Kwanza não permite a produção de muita energia eléctrica. Bruxuleantes no meio da treva, janelas iluminadas de prédios com gerador próprio.

No aeroporto há sinais de evolução - as filas são mais ordeiras, há mais empregados nos procedimentos alfandegários. Estranhamente, não me assaltam à saída para me carregarem a mala até ao carro.

O Sahara brindou-me com uma tempestade belíssima, vista na segurança dos 10.000 metros de altitude.

O mundo é um beco, desde que a velocidade dos transportes nos põe nos antípodas no tempo de uma sesta. Não ajuda também, encontrar os mesmos produtos multinacionais, à espreita em cada esquina.

VIAGEM

novembro 27, 2003

ALCÂNTARA


Em Alcântara existem recentemente estes edifícios que criaram comigo uma empatia da qual ainda não tive tempo de analizar os porquês. Será a simplicidade das linhas? A extensão das áreas vidradas que não chegam a ser cortinas de vidro (e que tão mal se comportam perante o olhar inocentemente voyeurista de quem passa)? O casamento do vidro com o capeamento de tijolo? O ar pacífico, simpático, não-agressivo? Não faço a mínima. E vou trabalhar que a hora de recreio chegou ao fim.

TRABALHO

Passam das três da manhã do que está a prometer ser uma directa a trabalhar (profissão liberal obriga) e faço uma pausa. Em vez de descansar os olhos do ecran, descubro-me a escrever para aqui como terapia anti-sono, anti-cansaço, anti-desalento por pensar que a cama seria um destino bem mais agradável que esta cadeira que já magoa, esta secretária que entorpece, este frio lento que, apesar do aquecimento e das calafetagens múltiplas, se insinua.

A cidade chove outra vez como que a sublinhar o mau-tempo que, oficial/oficiosamente derrotou a candidatura à Taça. O fim de tarde, um pandemónio total. Não percebo e nunca vou perceber se a chuva agrava a nabice dos condutores citadinos ou o seu desesperado egoísmo.

novembro 26, 2003

A TAÇA DOS AMERICANOS

...como a ouvir ser denominada por um dirigente sindical.

Antes de ser anunciado o nome da cidade anfitriã, quero deixar registado que esta seria (será?) uma oportunidade óptima para revitalizar o país. Não (mas também) pelo milhões que se anunciam ser trazidos pelas resmas de tripulantes e famílias, jornalistas e observadores. Não (mas também) pela publicidade grátis ao país em todos os orgãos de informação.

Foco-me no "boost" de auto-estima que a vitória da candidatura significaria (e ainda por cima contra a Espanha...) a qual só teria tendêcia a aumentar com o desenvolvimento e conclusão de todos os trabalhos de urbanização.

E, atendendo aos 35% de peso na globalidade da economia que a construção civil detém, foco-me - muito - no emprego e na geração de riqueza que o projecto e construção de marinas, edificações, acessos viários e demais infra-estruturas irão gerar.

(E já agora: o gozo que vai ser ler e ouvir velhos do restelo e fanáticos degladiarem-se acerca das desvantagens e vantagens do acontecimento).

FOI VOCÊ QUE SE INSURGIU CONTRA A PRISÃO PREVENTIVA?

Um dos irmãos "buzinãos" pinto está em prisão preventiva há mais de três anos. Não ouvi, durante todo este tempo, uma referência, um protesto, uma objecção da parte de quem quer que fosse - políticos, jornalistas, juristas, opinion makers. Nem sequer de algum dos recentes ofendidos com a injustiça da mesma.

Somos todos inocentes até prova em contrário mas há uns mais inocentes do que outros?

TEMPUS FUGIT (II)

O TEMPORA

Não sei se reparaste no delicioso pormenor da garrafa de Coca-Cola pousada à laia de água mineral no palanque de onde a nóvel presidente interina da Geórgia discursava ao Parlamento.

Notável.

novembro 25, 2003

BURACOS

BURACO 1: O que apareceu em Campolide.

BURACO 2: As explicações do senhor Presidente da Câmara acerca do "caneiro" de Alcântara - "em linguagem simples para as pessoas entenderem - o caneiro é um tubo que leva os esgotos de Lisboa para o rio". A última vez que vi, a estação de tratamento de águas residuais (ETAR) que existe na Avenida de Ceuta ainda funcionava, logo os "esgotos" não vão (desse lado da cidade) para o rio; o "caneiro" é o entubamento do que deveria correr naturalmente e que é a antiga ribeira de Alcântara.

BURACOS 3 A n: Os que andam pela cidade toda, tipo célula terrorista, à espera que uma chuvada mais forte, um cano rebentado ou uma sobrecarga clandestina os despertem e os faça aparecer em todo o seu esplendor. Já escrevi e repito: a encosta de Alfama é uma bomba relógio pronta a rebentar.

BICICLETAS

novembro 24, 2003

TEMPUS FUGIT (I)

É A CIDADE UM OBJECTO ARTÍSTICO?

(...)
Se entendermos um objecto artístico como algo com origem numa vontade consciente e única de criação e fruto de um acto único no tempo, não. A cidade constroi-se diacronicamente, num acto contínuo de elaboração, fundado em múltiplas vontades, em dispesas vontades, reflexo de visões, sentires e pensares muitas vezes opostos. Esta a posição de historiadores como Chueca Goitia para quem - com excepção de pequenas unidades de espaço -, à cidade falta a unidade e a coerência intrínsecas a uma obra de arte.

Na outra ponta, está gente como Argan, que considera que a cidade, sendo o berço da Arte é, forçosamente, toda a Arte. Síntese e génese, a cidade é, de per si, o objecto artístico por excelência.
(...)


Papeis dispersos. Mensagens em garrafas.

COM A TRALHA ÀS COSTAS

Começo a ficar farto desta ginástica de mandar as fotos para o blog brasileiro e depois fazer links no planeta...

Não tens uma solução mais fácil por aí à mão?

novembro 23, 2003

CULTURA GERAL

O ruído sobre a má-formação escolar das novas gerações está tão ensurdecer que acho que já ninguém se consegue ouvir a pensar. O Francisco José Viegas deu o mote aos blognonautas ao comentar (mais) uma nova proposta do Professor Freitas do Amaral: a intridução de uma disciplina de "Cultura Geral" no secundário.

Eu acho que a maior parte dos "bitaitadores" que, mais ou menos seriamente, mais ou menos reflectidamente, apresentam novas propostas para a reforma do ensino ou já se esqueceram da sua juventude, ou se esqueceram de acompanhar a juventude dos seus filhos adolescentes ou estão demasiadamente intoxicados pelas teorias que tiveram de decorar para obter a licenciatura. Ou estão demasiadamente intoxicados.

Vou, mais uma vez, tentar ser radical (e posso sê-lo à vontade porque, pelo silêncio que me rodeia, ou estou a escrever para mim mesmo ou toda a gente concorda comigo).

Proponho vários passos atrás para dar um passo à frente : meia dúzia de disciplinas básicas, dadas com tempo e capacidade: Matemática, Português (com a inclusão, desde o 5º ano, de textos literários "clássicos" - escritos até 50 anos antes), História, Inglês, Ciências Naturais/Geografia, Física/Química, Arte, no horário da manhã. À tarde, Desporto/Educação Física, uma opção "cultural" (Teatro, Poesia, Culinária, Poesia, Desenho/Pintura/Escultura), uma opção de "cidadania" (Religião, Educação Cívica, Tarefas de apoio às populações) e um período de estudo.

"Educação Tecnológica"? "Área de Projecto"? "Estudo acompanhado"? Punha-as num saco.

O MISTÉRIO DO HOMEM DO CELULAR

Falta-me uma história para pôr à volta desta fotografia.

A MARTA

A Marta Veríssimo apareceu por aqui como quem não quer a coisa e comentou o meu texto de protesto pela proibição de fotografar nos museus portugueses. Achei uma maneira bonita de comunicar, de dar conta da sua existência, do seu trabalho.

A Marta tem um site muito bonito, cheio de coisas bonitas. Não sei se é profissional, se "apenas" gosta muito do que faz muito bem. Sei que gostei o suficiente para me por aqui a cantar loas às fotografias da Marta. (E para me repetir - já escrevi "muito" 4 vezes...)

Não é exagero - vai ver.

novembro 22, 2003

O CAMPO DE BRAGA

O artigo de hoje do Público confirma-me muito do que já pensava:

- O estádio é, dos dez, o único que se baseia num projecto que ousou utrapassar o esperado, no sentido em que a sua observação provoca uma reacção (explicar-me-ei bem? só reagimos quando provocados, só somos provocados quando postos perante o inesperado). Nessa linha, é o único que se poderia confrontar no mesmo plano de "contemporaneidade" com as propostas apresentadas ao concurso do estádio nacional de Pequim (a que O Projecto faz referência).

- Souto de Moura, com as suas obras, está a contribuir para que a paisagem portuguesa ainda tenha alguns espaços arquitectónicos estimulantes/provocadores capazes que promover novos caminhos tanto para os seus usufruidores como para os demais interventores.

- Finalmente, não resisto a provocar o Pedro Epiderme: "Digo que é um laboratório, porque foi um espaço em que desenhámos - como aqueles concertos de piano a quatro mãos - peça a peça, engenharia e arquitectura, intensamente e em tempos curtos. De manhã desenhavam os engenheiros; à  tarde desenhava eu a arquitectura;" (entrevista ao Público) Quando digo (provavelmente de um a maneira pouco articulada) que a arquitectura só ganha se o arquitecto sentir as estruturas, não estou a exigir dos arquitectos que saibam pormenorizar uma peça de betão armado ou um apoio de um montante metálico - refiro-me à percepção dos funcionamentos que permitam perceber que uma pala como a deste estádio (ou da do pavilhão de Portugal) é possí­vel e provável. (É claro que, para um edifí­cio vulgar porticado qualquer aluno de arquitectura sabe indicar os locais de implantação de pilares e vigas - isso é corriqueiro e habitual. Só que eu, apesar do "corriqueiro e habitual" garantir a maior parte do sustento na maior parte do tempo a quase todos os profissionais do sector, pensava no outro lado da lua). Porque é que um arquitecto não há-de projectar uma ponte?

CONTOS DO GIN TÓNICO (II)

Porque é que, na esmagadora maioria dos museus portugueses, é proibido tirar fotografias ou filmar?

Então porque é que não há à venda diapositivos ou postais - em condições!- que reproduzam a maioria das peças expostas?

BARBARA (II)

Fica só entre nós dois, Barbara. Quando depois das 4 últimas canções e de um encore previamente acordado, nos decidiste brindar com o We Shall Overcome eu senti que esse grito era uma resposta tua aos tempos presentes, um recado aos presentes de que há, desse lado da barricada em que te querem incluir, gente que também diz não, gente que defende que a liberdade é para todos e que a paz, um dia, será uma realidade em todo o lado.

E sabes? Esse grito valeu mais que todo o restante concerto porque das belas palavras mortas soubeste tirar um cântico de vida, soubeste dizer que, mais do que uma tremenda voz, és uma tremendíssima mulher, Barbara.

E fica só entre nós o arrepio que me surpeendeu e encheu os olhos de água, Barbara, que emoção.

BARBARA (I)

Souviens toi Barbara
Il pleuvait sans cesse sur Brest ce jour-là
Et tu marchais souriante
Épanouie ruisselante
Sous la pluie
Rappelle-toi Barbara
Il pleuvait sans cesse sur Brest
Et je t'ai croisée rue de Siam
Tu souriais
Et moi je souriais de même
Rappelle-toi Barbara
Toi que je ne connaissais pas
Toi qui ne me connaissais pas
Rappelle-toi
Rappelle-toi quand même ce jour-là
N'oublie pas
Un homme sous un porche s'abritait
Et il a crié ton nom
Barbara
Et tu as couru vers lui sous la pluie
Ruisselante ravie épanouie
Et tu t'es jetée dans ses bras
Rappelle-toi cela Barbara
Et ne m'en veux pas si je te tutoie
Je dis tu à tous ceux que j'aime
Même si je ne les ai vus qu'une seule fois
Je dis tu à tous ceux qui s'aiment
Même si je ne les connais pas
Rappelle-toi Barbara
N'oublie pas
Cette pluie sage et heureuse
Sur ton visage heureux
Sur cette ville heureuse
Cette pluie sur la mer
Sur l'arsenal
Sur le bateau d'Ouessant
Oh Barbara
Quelle connerie la guerre
Qu'es-tu devenue maintenant
Sous cette pluie de fer
De feu d'acier de sang
Et celui qui te serrait dans ses bras
Amoureusement
Est-il mort disparu ou bien encore vivant
Oh Barbara
Il pleut sans cesse sur Brest
Comme il pleuvait avant
Mais ce n'est plus pareil et tout est abîmé
C'est une pluie de deuil terrible et désolée
Ce n'est plus le même orage
De fer d'acier de sang
Tout simplement des nuages
Qui crèvent comme des chiens
Des chiens qui disparaissent
Au fil de l'eau sur Brest
Et vont pourrir au loin
Au loin très loin de Brest
Dont il ne reste rien.


Jacques Prévert

AH GANDA REININHO!

"A Justiça está
No Canadá
Onde a polícia
é montada"

novembro 21, 2003

CONTOS DO GIN TONIC (I)


Quando é que se vai perder esta ideia absurda de que os edifícios se preservam mantendo-lhes a fachada?

É um compromisso típico português: "nós até queríamos que se mantivesse todo o edifício, mas como não temos coragem nem imaginação para propor soluções que tornem economicamente vantajosa a manutenção desse edifício e como não temos coragem para assumir a ruptura, criamos esta meia-verdade que é a de que a memória da cidade se mantém se a fachada antiga ficar".

Isto é um aborto mental.

Ou se mantém o edifício na sua totalidade ou não é uma referência descontextualizada que vai fazer a diferença. Não sei se por gozo puro ou por descuido, existe um prédio na Av. Almirante Reis que levou esta prática ao extremo: na fachada, e de um modo diferente do original, foram reintegrados o pórtico de entrada, um friso e as janelas da moradia pré-existente. Que memória é aquela?

Situação eventualmente ainda mais no limite, é a da reconstrução da Casa dos Bicos. Por mais irónicas que as janelas dos arquitectos José Daniel Santa Rita e Manuel Vicente sejam, a lembrar que os dois pisos superiores são reconstruções, a ideia que prevalece é a de um pastiche neo-romântico. (mas talvez este não seja um bom exemplo... logo se vê pelas tuas reacções).

AS NOVAS ANTAS

Desculpem-me todos, especialmente os meus conclubistas, mas o novo campo de futebol do FCPorto é, até agora, na globalidade, o esteticamente mais bem conseguido. É sóbrio (não tem patacoadas em forma de revestimento nem um arquitecto a pôr-se em bicos dos pés), está acabado ( não lhe faltam os revestimentos exteriores), tem um volume muito bem conseguido, harmónico, equilibrado e tem espaço à sua volta (não o encafuaram - por enquanto - no meio de urbanizações medíocres para classe média).

Só não gosto do nome. Devia chamar-se DRAGONBALL.

ENTRADAS DE LISBOA

Numa saudação aos automobilistas que entram (já entraram por alturas de Monsanto, mas aqui a sensação é mais forte) em Lisboa via viaduto Duarte Pacheco, já se encontrava um Almada Negreiros a preto-e-branco com umas couves à cabeça da autoria de Leonel Moura.


Para fazer par, está em construção o que parece irá ser um fontanário international style de Francisco Caldeira Cabral. Ora toma! O Porto tem o grandioso estádio, Lisboa vai ter isto.

INCOMPATIBILIDADES

Se, durante muito tempo, foi a arte contemporânea que causou perplexidades e sentimentos automáticos de recusa - o que ainda hoje se verifica em muito boa gente ("mas o que é que aquilo quer dizer? o que representa? onde é que está a arte em meia-dúzia de gatafunhos?") -, a prática corrente, neste mundo pejado de estímulos visuais contemporâneos, é a inverter a rejeição para a arte do passado. "Ora, retratos de santinhos que não me dizem nada.", ou "são todos iguais, virgens atrás de cristos, atrás de santos, tudo muito piedoso, tudo muito chato, tudo muito morto".

Enganos fatais. Gostaria de citar alguém que diz mais ou menos isto (quando encontrar o livro, recito correctamente) "não se esqueçam que, antes de ser um cavalo, um livro, uma bola, uma pintura é um conjunto de traços dispostos de uma maneira intencional pelo autor" - alguma coisa como isso.

Por isso, em verdade te digo, antes de te chateares com o santinho ou de te exasperares por não perceber o que te é proposto, segue o conselho do Ricardo Reis - relaxa, ama, bebe e sente. Vais ver que é tudo.

O MISTÉRIO DO CLAUSTRO DAS LARANJAS

Filha de um deus menor em Portugal, à pintura portuguesa do século XV está reservado um lugar cheio de brumas, onde cada resposta teima em aparecer do saco de mistérios onde jaz.

É e tem sido assim com Nuno Gonçalves - e que maravilhoso blog deveria ser, aquele que só tratasse dos Paineis de S. Vicente de Fora! -, foi e ainda é, em parte, com João Gonçalves.

Desculpa... disseste - quem?

Se hoje em dia, já apenas os portugueses de gerações mais vetustas, pré-reformas curriculares, juntam o nome do primeiro à sua obra (e que obra...!), de João Gonçalves apenas guardam o nome a meia dúzia de eruditos que oficiam universitária ou museologicamente na área próxima e mais alguns apaixonados que, por acaso, ou por ligação efémera à pintura renascentista portuguesa, deram atenção.

Era uma vez... uns frescos de autor não comprovado, existentes no claustro das Laranjas da Badia de Florença e que, num livro saído em 1953, um prestigiado historiador da arte italiano, Roberto Longhi, classificava como “Il piú importante che resti a Firenze, del decenio sequente alla morte di Masaccio”. Ora sendo Masaccio uma das três figuras geralmente consideradas como as mais marcantes do início do Renascimento (sendo as outras duas Brunelleschi e Donatello), porquê este silêncio em torno do autor das obras "mais importantes do decénio seguinte"? A resposta, sabe-se depois das conclusões a que chega Cruz Teixeira na sua tese de doutoramento, será porque são obra de uma mão não-italiana e, como tal, estrangeira ao mito do Renascimento criado totalmente por artistas locais.

Obra de uma dedução quase sherlockiana, a investigação e comprovação da autoria portuguesa dos frescos parte da análise dos documentos publicados em 1963 por Eduardo Borges Nunes no livro dedicado a "Dom Frei Gomes" (outra figura notável, abade dessa mesma Badia, convidado para pôr a casa em ordem), cruzando-os com a leitura das formas tão cara à actividade de um Historiador da Arte. O relato é empolgante mas poderá parecer árido nestas páginas. A conclusão é, no entanto, cristalina: o autor de tão importante obra não poderá ser outro que não João Gonçalves.

O mistério, contudo, permanece e permanecerá para sempre ou até que, obscuros documentos sejam arrancados do seu pó de séculos para voltarem a ser lidos à luz do presente. Quem foi João Gonçalves? Onde foi feita a sua formação? Que obras pintou para além dos frescos da Badia? Estarão, como é bastante provável, todas perdidas?

Fica a obra. E para além do seu lugar na História da Pintura Italiana, fica o seu carácter pioneiro e antecessor da pintura da escola portuguesa do renascimento: uma maneira muito particular de continuar a citar o quotidiano no meio do tema mais formalmente religioso; uma graça, uma ternura que vai muito para além da "seriedade" do tema; uma construção que eu arrisco chamar quase cinematográfica: pequenos detalhes, pequenos comentários que são introduzidos aqui e ali e que vão dinamizando a nossa leitura da obra, lhe vão alterando o ritmo, lhe vão quebrando a rigidez. O frade que, risonho e cúmplice, nos sorri; o homem que levanta os braços num sinal de impotência perante a lança partida; o pano que se esqueceu pendurado no meio da ceia. A lembrar, por exemplo, o S. José de Gregório Lopes que, sorridente, cuida das brasas do fogareiro, tão absorto que se esquece da importância histórica de ter ao seu lado o Salvador dos Homens...

novembro 20, 2003

OCIDENTE

Não, não podes permanecer neutral. Já te escolheram o lado.

Por muito que estejas contra os actos de guerra americanos. Por muito que lhes critiques o autismo, o egoísmo, a cega ambição. Por muito que abomines Bush, com aqueles olhinhos de conta, orelhas de abano e inteligência que não ultrapassa os limites do seu quintal.

Por muito que te consideres tolerante, democrata, participante num movimento de solidariedade com todos os seres humanos, apoiante de reformas económicas justas que visem criar uma maior igualdade e justiça social entre todos os países do mundo; dos pobres e oprimidos; das mulheres exploradas; dos emigrantes; dos imigrantes; dos indefesos; dos povos tiranizados, invadidos, ocupados, dictatoriados.

O teu lado é - pelo teu nascimento, pelo bilhete de identidade que ostentas, pelos genes, pela cultura que absorveste consciente ou inconscientemente, pelas tuas posições políticas (que são herdeiras dessa cultura), pelo Deus em que confias ou que mataste - o lado ocidental.

E esta guerra que nos entra pela casa dentro, lá longe, tão perto, cada vez mais perto, é a tua guerra. Concordes ou não com ela.

É a tua guerra.

novembro 18, 2003

LISBOA: RECICLAGEM PRECISA-SE

Ainda motivado pela proposta de construção de três torres de 105m de altura em Alcântara.

A construção em altura iniciou-se nas principais cidades dos Estados-Unidos como forma de escapar aos constrangimentos devidos ao pouco espaço disponível nas zonas mais apetecíveis para instalação de serviços (donwtown). Construir “para cima” era uma forma de ocupar pouco terreno com muita construção, para além de, complementarmente, servir de imagem ao “vencer na vida” tão querido do “american way of life”.

Construir em altura, cada vez mais alto, tornou-se igualmente uma proeza técnica e transformou-se assim num símbolo do progresso e da capacidade técnica e económica das sociedades.

CONSTRUIR EM ALTURA EM LISBOA, PORQUÊ?

Há falta de espaço?

Há falta de prédios construídos?

Há falta de áreas construídas destinadas à habitação?

Não. Não. Não.

É óbvio que enche muito mais a vista de quem passa, uma torre de 105 andares do que um prédio oitocentista reabilitado (e isso dependerá sempre da cultura de quem olha e da cultura de quem fez).

É óbvio que enche muito mais um programa eleitoral.

É óbvio que se autointitula como uma rotura e isso pode ser considerado como um avanço, como sinal de uma modernidade à qual o exterior já chegou e que a nós ainda nos faz falta.

Mas,

Com tantos metros quadrados – uns amplos, outros esconsos, uns acolhedores outros nem por isso, uns implantados em zonas nobres da cidade, outros em zonas históricas, uns com vista para o rio, outros para o vizinho, uns em colinas, outros em vales, uns em prédios gaioleiros, outros em prédios “de placa”, uns pombalinos, outros raul-linos, outros ainda semi-clandestinos – por aí abandonados, filhos de um deus menor que não os protegeu da semimorte a que o tempo e o senhorio os condenou.

Com tanta gente a abandonar a cidade em exílio para os subúrbios por falta de oferta destinada ao seu bolso ou à sua paciência para procurar.

Com tanta necessidade que a urbe tem em revitalizar os seus bairros, em devolver uma qualidade de vida que escapa a todos, principalmente a si própria (não faz nada bem à saúde, este receber milhares e milhares de viaturas de manhã para as ver partir ao fim do dia, este rasgar de vias de acesso sobredimensionadas para uso em poucas horas do dia, este esventrar de passeios para acolher intrusos que os deixarão abandonados nas 12 horas em que poucos trabalham).

PORQUE NÃO RECICLAR?

Recebem-se menos taxas? Acabam-se muitos negócios? Afagam-se menos egos?

Ah.

novembro 17, 2003

LOVE ACTUALLY

Precisamos de um Capra que nos ofereça um tempo de ilusão, que nos ajude a superar estes tempos de descrédito e baixa auto-estima. Que nos faça acreditar que o amor existe e que anda por aí à espera de ser encontrado.

Precisamos de um Clarence que nos demonstre que a nossa vida conta. Que apesar de um na multidão não somos apenas mais um. Que um gesto nunca é insignificante. Que um sorriso nunca se perde. Que um abraço faz a diferença.

Que venha a utopia. Que lhe chamem alienação. Que nos torne melhores.

A ARCA DE ALEX (II)

Perante as capas da Winter&Winter, fica a tentação de comprar sem ouvir primeiro, de acreditar que o objecto traduza com fidelidade o conteúdo.

Não sei se Alex sucumbiu à  tentação ou se ouviu antes. Talvez tenha sido uma compra na sequência da sua paixão pela world music. Talvez.

Para mim foi a descoberta fascinante dos sons que habitam Havana muito para além de Buenavista.

novembro 16, 2003

LEITURAS DE FIM-DE-SEMANA (II)

Alain Minc em entrevista a Maria João Avillez, novamente no Expresso.

Descobri que ando divorciado do mundo, afinal há gente que pensa o que eu penso, que chega (por outras palavras, com outra preparação teórica, com melhor apresentação) às mesmas conclusões que eu. Bom, vou à la recherche du temps perdu e entretanto releio a entrevista.

Frases soltas:

" (...) Quando cada um se demite e as instituições desaparecem, os governantes estão perante algo de indefinível que é justamente a "opinião pública". Veja o caso das reformas: quando não há patrões nem sindicatos, que fazem os governos? Avançam e depois há um milhão de pessoas na rua, contra eles. Daí o medo, porque se trata de um jogo sem regras. Como se os governates andassem num quarto escuro... A partir desse momento perdem o pé, deixam de agir. Com isso provocam reacções antipolíticas e acentuam o populismo."

"(...) a marca genética do populismo é o anti-elitismo, a hostilidade activa face às elites (...)"

NORONHA DA COSTA

Muito gostava de ver Noronha da Costa discutido neste espaço (planeta reboque e noutros planetas). Muito gostava de saber reduzir a uma forma aceitável para este espaço os textos que Cruz Teixeira publicou há muitos anos no Jornal de Letras e que constituem uma análise fundamental da sua obra.
Muito gostava que muitos fossem até ao Centro Cultural de Belém.

LEITURAS DE FIM-DE-SEMANA (I)

O artigo do Expresso-Actual sobre o Arq. José Porto, principalmente a nota escrita por Manoel de Oliveira.

Gostei da história relativa à varanda da casa e aos "ferros" projectados e aos que o empreiteiro (com o apoio do seu técnico responsável) queria colocar. Hoje em dia, com a normalização instituída pelos Regulamentos, não será tão premente a consciência premonitória dos projectistas, mas que continuam a trabalhar por aí muitos empreiteiros com a mania que percebem muito mais "disto" que os autores, lá isso continuam.

novembro 15, 2003

A PROPÓSITO DO ARTIGO DO PÚBLICO (post anterior)

Gosto de ver Lisboa como uma cidade de "tempo lento". É uma imagem sedutora.

Quanto à suposta atitude "reprovável" de Álvaro Siza: provém do mesmo arquitecto que se confessou manietado pelas instruções do cliente no projecto de renovação do Chiado.

ALTORRES

Está na edição on-line do Público. Como os textos costumam durar por lá pouco tempo, resolvi transcrevê-lo "ipsis verbis". Agradeço contacto do jornal se os copyright mo impedir de o fazer.

Carta Aberta Aos Lisboetas a Propósito das "Torres do Siza" para Alcântara
Por JORGE VILHENA MESQUITA E ANA PAULA GAGO
Quinta-feira, 13 de Novembro de 2003

Escreve o arquitecto italiano Vittorio Gregotti na sua obra "Nas Pisadas de Palladio - Razões e Prática da Arquitectura" que "Temos [os arquitectos] (...) enormes responsabilidades colectivas, o nosso trabalho perdura no tempo tanto nos seus êxitos como nos seus erros, e estes condicionam fortemente o nosso ambiente."

Servirá ela de epígrafe à reflexão que propomos sobre o projecto da autoria do arquitecto Siza Vieira para o terreno de 4,5 hectares, actualmente ocupado sobretudo por equipamentos industriais desafectados na zona de Alcântara, muito próximo da ponte sobre o Tejo, e destinado a um empreendimento imobiliário com uma área de construção anunciada de 104 mil m2, constituído por três torres de 35 andares e 105 metros de altura e seis edifícios de quatro andares, para habitação e serviços.

Não se pode ficar indiferente ao impacto que um tal complexo imobiliário não deixaria de ter numa zona crítica da cidade que nunca recuperou dos efeitos que nela teve no passado a construção da ponte, semi-enclausurada entre vias e nós rodoviários e ferroviários, e onde qualquer intervenção deveria obedecer aos princípios do recozimento e clarificação possíveis de uma malha urbana esgarçada. Nela aconselhar-se-ia exactamente o oposto do que para lá se propõe: uma brutal densificação, aproveitando a modificação do uso do solo, de industrial a habitacional e de serviços. O súbito afluxo de milhares de pessoas e de milhares de automóveis que este projecto implicaria só poderia agravar duradoiramente a situação actual.

A arquitectura não é criação divina: não nasce do nada por obra e graça de um qualquer arquitecto-Deus. A sua ligação ao sítio, ao lugar pré-existentes - que são a sua circunstância - impõe-lhe, ainda nas palavras de Gregotti, "a sua primeira responsabilidade". Ora no projecto de Siza, não é o sítio, o lugar, que parecem pré-existir, é o projecto que, na sua arrogância, se lhes impõe como se nada existisse em volta, num total desprezo pelo quadro envolvente, ultrapassando inclusive a altura do tabuleiro da ponte. Estamos nos antípodas do "orgulho da modéstia" que Gregotti sabiamente preconiza como atitude do arquitecto na citada obra.

Este projecto tanto poderia surgir ali como noutro sítio qualquer. Na sua abstracção, o que importa não é a melhor integração naquele lugar, nem a articulação com a zona ribeirinha, nem um qualquer aproveitamento cenográfico do rio: nele o que conta é como atafulhar melhor todo aquele volume de construção pré-definido nos 4,5 hectares de que dispõe. E como à escala urbana pré-existente isso é impossível, projecta-os em altura. Esta é a sua primordial verdade. Convém não nos enganarmos: estamos aqui em presença de uma poderosíssima operação de especulação imobiliária. É nessa lógica que ele deve ser visto, mesmo se aparecerá sempre alguém a justificar esteticamente os objectos que a especulação produz: sempre alguém chamará "belo" ao que o subjuga.

A memória dos homens é curta e manipulá-los é fácil. Mas quem ainda não tiver esquecido de todo as imagens de homens e mulheres despenhando-se das Torres Gémeas no 11 de Setembro, terá percebido quanto tais espaços são desumanos, quanto o homem neles se vê reduzido à sua insignificância viva - o que não surpreende, aliás: eles não são construídos para o homem. Desumanidade, esterilidade, desterritorialidade, eis o que eles criam. Quem os concebe aposta, de forma mais ou menos consciente, na rotura, na fragmentação da cidade e na destruição da memória que as acompanha, porque quanto menos homogénea e legível nessa homogeneidade a cidade for, melhor poderão prover aos seus interesses.

Este projecto poderia ser acolhido com interesse em certas cidades da América do Norte ou do Sul - mas alguém imagina que pudesse "passar" em cidades como Roma, Praga ou Estocolmo?

Através dele podemos ver a separação das águas entre dois "modelos" de cidade.

Poderíamos chamar-lhes as cidades "do tempo lento" e as cidades do "tempo breve". No primeiro, predominantemente europeu, encontramos aquelas cidades que, fruto de um lento processo que só o tempo e a duração permitem, são das mais belas obras colectivas do homem, numa coerência arquitectónica que é o resultado do sábio doseamento de memória e de variação, e onde a preservação do património legado é um valor interiorizado e praticado - o que se traduz em taxas de recuperação do património construído da ordem dos 40 ou 50 por cento, ou seja, quase 10 vezes (!!!) superiores às das cidades portuguesas. O segundo, de matriz norte-americana, reduz a cidade - ou melhor, o espaço que, por antonomásia, tomamos como sendo o da "cidade americana" e cujo símbolo seria Manhattan - a um teatro de jogos e interesses económico-financeiros no qual o território, o espaço, são um bem a apropriar e a explorar. É este que, no seu pior, tem vingado na América Latina, no terceiro mundo, e em todo o lado onde o dinheiro é lei, os mecanismos de controlo cívico e democrático são fracos ou inexistentes, a memória recua e a desterritorialização avança.

Não nos iludamos: é este "modelo" a não seguir que, em detrimento do outro que quereremos para as nossas cidades, está subjacente ao projecto das torres para Alcântara.

Convém recordar que este projecto consubstanciaria uma violação do PDM que, ao que sabemos, continua em vigor, e que interdita cérceas superiores a 25 metros. Já foi arremessado o argumento de que, de qualquer maneira, este mesmo PDM já foi antes impunemente violado, ou que se prefigura a sua revisão. Trata-se de argumentos inaceitáveis à luz da ética e do direito. O primado da lei é mesmo um dos fundamentos do Estado de direito e a sua violação deve ser sancionada .

Que um arquitecto com o renome de Siza e aureolado de um estatuto de "vaca sagrada" da arquitectura portuguesa projecte - e assim caucione - um tal complexo imobiliário em violação do PDM em vigor parece-nos reprovável, mesmo no pressuposto de uma sua hipotética revisão: pela violentação que o projecto configura em si e pela pressão que, mercê da autoridade de que Siza goza, vem acrescentar à alteração do PDM numa direcção certamente indesejada pelos lisboetas. E que um presidente da câmara de Lisboa apadrinhe tal projecto parece-nos, no mínimo, ética e politicamente condenável. Sirva isso ao menos para que se perceba de vez o que esconde a sua ânsia em rever o PDM expeditamente, a trouxe-mouxe.

Porém, onde houver liberdade de espírito e de pensamento não há lugar para vacas sagradas. As obras que produzam valem ou não valem por si próprias, como, à evidência, todas as obras humanas. E estão sujeitas ao escrutínio e apreciação daqueles a quem em princípio se dirigiriam.

Por todas as razões expostas, o projecto das Torres de Alcântara não serve os lisboetas nem serve Lisboa. É um projecto de especulação imobiliária pura e dura, entregue a um arquitecto de renome para forçar a sua passagem. Só isto. Serve os seus promotores, com ele ganhando também o arquitecto. A realizar-se, o seu impacto negativo na cidade perpetuar-se-ia no tempo.

Os signatários, não vivendo em Lisboa, sentem-na como sua. Mas são sobretudo os que aí vivem que podem agir para que a palavra lhes seja devolvida neste processo e para que essa palavra pese decisivamente no seu desfecho. Ao fazê-lo, estarão a usar do direito que têm a não verem a sua cidade irremediavelmente maltratada e desfigurada. É tempo de dizer não às Torres de Alcântara.

Tradutor e arquitecta
"


novembro 14, 2003

ANACRONISMOS

Muito mais do que os elogios feitos por Cunhal aos Sois que na terra ainda brilham, faz-me muita impressão a pose arrogante e acintosa de alguma direita que discursa como se ainda estivesse em 75.

O ministro da Defesa era um puto em 75; não me venha com tretas, como se tivesse estado nas barricadas de Rio Maior. Seria bem mais interessante se se preocupasse em ser coerente com o cristianismo de que se diz embuído e se mostrasse cordato com quem perdeu no confronto com a História.

5 ANOS? UPA, UPA!

O projecto de reforma da actual Constituição proposto pelo PP/PSD foi apresentado.

Gostei do aumento do prazo dos mandatos e principalmente do embrulho que PSL lhe fez. "Para haver mais estabilidade e garantir melhor funcionamento (...)"

E porque não uma eleição vitalícia? Para estabilidade não haveria melhor...

(E já agora: o que é ter "honra democrática" em ouvir os outros?)

TROPA FANDANGA

As equipas da BBC são treinadas em Inglaterra por um ex-agente dos SAS, levam escolta própria e preparam a viagem e estadia no Iraque até ao mais ínfimo pormenor. Os jornalistas portugueses vão em alegre excursão, confiados no convite do Governo e avançam em alegre excursão pelo país dentro ( "Um país de bandidos", curiosas palavras de Maria João Ruela...).

Esperemos que não existam as mesmas diferenças de planeamento entre as tropas britânicas e a GNR.

ERVAS


estragão cerefólio cebolinho manjerona manjericão erva-príncipe erva-cidreira tomilho tomilho-limão salsa coentros alho aromático hortelã hortelã-pimenta rúcula sálvia alecrim louro oregãos segurelha beldroegas

Portugal agrícola nesta urbe cleanex onde os empregados das grandes superfícies (e das pequenas e das mínimas) nos olham como extra-terrestres quando lhes perguntamos por qualquer aroma que escape ao tradicional coentro/salsa/hortelã.

Todas elas e tanta coisa que só pode bem fazer na Biocoop (fornecem-se aplicações para as ervas a pedido).

NOTAS VERBAIS

Dando consistência aos receios do seu autor de censura e bloqueio terrorista sobre o seu site, o Notas Verbais está indisponível. Experimenta clicar no link do título.

Eu não acredito em bruxas mas que as há...

PS - Talvez a união dos blogs livres pudesse emitir um protesto formal...?

CITANDO O FRANCISCO QUE CITA O JOÃO

""Eles transformaram os telejornais em ficção e o resto são 'reality shows'. Há cada vez menos espaço para coisas sérias, boas e rigorosas" - João Botelho, na abertura do Cinanima."

O Íntima Fracção é uma chamada de atenção, a nós que deixamos morrer tudo, porque estamos demasiadamente ocupados a tratar da nossa sobrevivência.

CÍRCULO VICIOSO, CÍRCULO VICIANTE

Passo os olhos pelos meus blogues de estimação (ver links à direita). Tirando o nosso euro-deputado (que, muito senhor do seu nariz, se recusa a dar tempo de antena aos seus vizinhos em forma de links gratuitos ao lado do texto e que só mui raramente a eles aludes nos seus posts), assisto a uma profusão de citações que extravasa a coluna do lado e, insidiosa se instala por posts e posts.

Ele são troca de galhardetes. Ele são troca de acusações. Ele são comentários, elogios, despautérios, enfim uma profusão que me levanta uma questão: faz parte das regras do jogo para aumentar a audiência, é a constatação que a comunidade bloguística portuguesa é um conjunto de "old boy's networks" que funcionam em circuito fechado no que toca a citações ou sou só eu que estou p'raqui a queixar-me de ninguém me ligar nenhuma?

Caramba, já me sinto o Manel Maria nos seus comentários na SIC...

DESVIO SIMPÁTICO

Ah, a Epiderme, a Epiderme... Afadiga-se um homem a construir um blog simpático, sério, onde se procura discutir o âmago da arquitectura e do homem, da luz, do corpo e do espaço e basta um momento de distracção a comentar o comezinho da profissão ("O TÉDIO E OUTROS PROBLEMAS") e lá aparece um chato com vontade de discutir essas coisas até ao tutano.

Pedro Jordão, a minha solidariedade.

UM QUADRO

Todas as histórias têm um começo, um meio, um fim. Todas as obras de arte têm também uma história para contar, com um princípio, um meio, um fim, diferentes para cada espectador que se disponibilizar a escutar.

Nos meus passeios pela vizinhança, encontrei um post interessante no Blog de Esquerda sobre António Damásio, Rembrandt e A Aula de Anatomia do Doutor Tulp. Escrevi um comentário com alguma leveza, mas ficou cá dentro a fermentar o desejo de voltar ao quadro num post só para ele.


Porque pomos títulos nas coisas? Par nos identificarmos com elas, para as identificarmos, para delas tomar posse? Ao nomear algo estamos, de alguma forma a chamá-lo nosso, a retirá-lo desse anónimo mundo que nos é desconhecido. Mesmo que nos afronte, incomode, agrida, criamos uma empatia com um nome. “A lição de Anatomia...” assim foi nomeada porque assim nos tranquiliza. Nada no instante que o pintor recria, nos fala de uma lição.

Fala-nos de um grupo de burgueses que, perfilados, ostentam o melhor perfil para o retrato que encomendaram. Um grupo heterogéneo, cujo elo de ligação é o espaço onde são retratados. Um grupo cuidadosamente ordenado a quem as próprias leis da física que curvam, omitindo sombras óbvias de modo a evitar deixar na penumbra partes dos rostos.

Fala-nos da terrível solidão da morte, da obliteração instantânea da condição humana que provoca: ninguém se interessa pelo cadáver, pelo homem que foi. Dois retratados traem no afastamento do corpo a distanciação que já sentem, o dissecador, esse Doutor Tulp que se permite manter a cabeça coberta, nem o olha, outros três presentes olham a mão do médico ou o braço dissecado, feito já objecto. Finalmente, as duas personagens mais afastadas apenas se permitem interromper o que tinham em mãos para posar para o pintor. Faça-se a experiência e substitua-se o corpo por uma mancha de luz – fica o quadro desequilibrado? Falta alguma coisa aos retratados?


Se o autor se permite evocar com fidelidade o morto é porque, com isso, cria uma relação de empatia com o espectador seu contemporâneo (tu conheces este morto, tu sabes o quão importante foi eliminá-lo, ergo, tu sabes que estes homens que o esquartejam existem e são importantes, são o poder).

O centro do quadro é o triângulo formado pelas duas mãos do médico e pelo braço dissecado.Se atentarmos nas duas linhas que as cabeças formam, veremos que elas condicionam o olhar do espectador para essa direcção; a vertical criada entre a personagem que, ao fundo, interrompe a leitura, e a mesma mão, tem o mesmo objectivo.


Esta acentuação é ainda dada pela instabilidade deste mesmo triângulo: apoiado num vértice, o seu desiquilíbrio cria uma dinâmica que reforça essa centralidade.

novembro 12, 2003

OUTONO EM LISBOA

Finalmente as árvores mudam de côr e o chão enche-se de folhas.

PARA LÁ DO ARCO-ÍRIS

Olho para lá da janela a névoa miudinha que a volta do Outono trouxe. A Jane Monheit canta over the rainbow e eu procuro a letra para a citar no começo de um post, do tipo "seria bom acreditar que, em algum lado, algum dia...". Mas recuo perante a tremendíssima piroseira dos versos:

Somewhere over the rainbow, way up high
There's a land that I heard of once in a lullaby
Somewhere over that rainbow, skies are blue
And the dreams that you dare to dream really do come true

Someday I'll wish upon a star and wake up where the clouds are far behind me
Where troubles melt like lemon drops high above the chimney tops
That's where you'll find me

Somewhere over the rainbow, bluebirds fly
Birds fly over that rainbow
Why, oh, why can't I?
If happy little bluebirds fly above the rainbow
Why, oh, why can't I?


Porque será que eles soam tão bem quando embrulhados na melodia?

CARNE PARA CANHÃO

Aquilo que era uma probabilidade aquando do anúncio do final das hostilidades, tornou-se agora uma certeza: Portugal vai mandar elementos de uma polícia civil para uma zona de guerra.

Porquê esta "ansiedade" à volta da declaração do Governo comentando o ataque desta manhã ao quartel das forças italianas? Não existe um comprometimento internacional no seu envio? Vamos, novamente adiar o seu envio? O que terá custos maiores - o risco de vida que o destacamento correrá com as mais que prováveis baixas ou o desfazer do acordo com o amigo americano?

O que acaba por ser - irónico? trágico? - nesta história é o facto do Governo ter optado por enviar um corpo de polícia para se furtar à obrigatória ratificação pelo Presidente da República, o qual se manifestou desde sempre contrário à invasão do país e ao apoio à mesma que o governo entendeu dar. Mais irónico, trágico, é poder pensar-se que, face à última decisão da ONU, o Presidente provavelmente não se oporia no presente ao envio de um contigente militar, esse sim melhor preparado para um cenário de guerra.

Penso em La Lys e pergunto-me: a história repete-se?

novembro 11, 2003

O NOSSO PRIMEIRO-MINISTRO SOMBRA

Comecei a escrever um longo texto com a análise à entrevista de Ferro Rodrigues. Apaguei tudo. Para quê o trabalho?

Opto por sintetizar: FR jogou à defesa, mostrou-se um aluno aplicado dos conselhos dos seus acessores mas com pouco vôo de asa para os aplicar, muito preso às palavras-chave e, sobretudo, revelou à saciedade a imagem que lhe colaram os comentadores nos últimos meses: pouca visão política, ingenuidade quanto basta e um espantoso desconhecimento dos efeitos das suas palavras e actos. Judite de Sousa foi a mosca perfeita (e passe o desagradável da comparação): chateou quanto pode mas não soube (ou não quis) dar a ferroada fatal.

Apenas algumas frases:

- "Há coisas que digo em privado e não digo em público". Isso é óbvio. Já eu o tinha escrito por aqui. O espantoso é JS não ter insistido "mas pensa-as, sente-as" e nenhum se ter apercebido da gravidade da afirmação. O político vale pelo que diz ou pelo que é?

"Pessoas bem-intencionadas podem ser enganadas". Faltou a pergunta, "acha então que a Justiça pode ser enganada e emitir um veredito errado?"

"Se eu soubesse que iríamos dar aquela imagem errada, eu não teria dito ao Paulo Pedroso para ir ao Parlamento (aquando da sua libertação) !!!!!!!!

- A teoria da cabala - eu digo que ela existe mas não quero falar sobre isso (parece um dirigente do Sporting...)

"As vozes que me querem empurrar para fora são de direita e de extrema-direita". João Soares, Manuel Maria Carrilho?
Ou, finalmente, é esta a origem da cabala? E quem é esta direita - Durão, Portas, Monteiro? Mais à direita? Menos à direita?

- Finalmente, o branqueamento total: o problema é a revelação das escutas, o facto de eu ter dito isso não tem importância nenhuma.

E para não comentar só "a cabala": "o anúncio do TGV demonstra a intenção das críticas que nos fizeram quando fomos nós a anunciá-lo". E então? O TGV é bom ou é mau?

Convidado a enunciar as grandes obras de que fala, prefere citar os problemas da rede do pré-escolar.

Desisti, por mais alguns meses, de assistir a entrevistas políticas.

A ARCA DE ALEX (I)

"Tens que ouvir, é absolutamente genial!"

O velho João Sebastião fica pequenino perante a vitalidade dos coros africanos. Nunca pensei, a austera música luterana feita em nome e para a glória do Altíssimo em núpcias tão boas e tão manifestamente VIVAS com noivo tão de uma outra visão do mundo.

Começa na maior auto-estrada que tiveres à mão, de preferência num dia de Sol radioso, de preferência com uma paisagem grandiosa. Pensa que o tempo é todo teu, os outros "a blot not in the landscape".

O som no máximo que as colunas aguentarem.

AI LÁLÁ LÁLE-I-Ô!!!!!!!!!!!!!!

Garanto que as lágrimas te saltarão quando entrarem os primeiros acordes da parte composta por Bach. Logo a seguir a tremendo arrepio que começas a sentir assim que a música começar.


[Na arca de Alex, primeiro compartimento da direita, envelope com o nome "If only the world could be like this", manuscrito, s/d]

O QUE EU QUERO É FUGIR PARA A AMAZÓNIA!



E O IPPAR: IPPA?



Fotografado neste ano da graça de 2003. Na Praça do Municí­pio da mui nobre cidade de Lisboa. Na Baixa pombalina.

COMO DISSE?

"O encerramento de grandes centros de comércio, nomeadamente em Lisboa, trouxe para mecanismos periféricos (...)"

Não, não é uma análise económica feita pelo Nuno Rogeiro. Tão pouco um comentário de Jorge Sampaio ao estado da economia...

É o Presidente da Câmara de Sintra, Prof. Fernando Seara, em declarações aos jornalistas, queixando-se da invasão da linha de Sintra pelo tráfico de droga após a demolição do Casal Ventoso...

FUGIR A BOCA PARA A VERDADE

"(...) as autarquias e o Instituto da Água podem intimidar os proprietários dos terrenos (...)"

Jornal da TVI, hora do almoço

QUE FUTURO? (2)

novembro 10, 2003

QUE FUTURO?

Se me perguntares se eu acredito no fim desta espiral de desobediência civil, eu respondo-te que não.

Antes que me acuses de me estar a transformar num neo-velho do antigo regime, deixa-me esclarecer que este assunto não vem à baila pelo continuar do movimento estudantil. Nem sequer do ridí­culo das manifestações que, por dá cá aquela palha, paralisam serviços, cortam estradas, chateiam toda a gente. Essas são expressão de um mal-estar colectivo e talvez a sua explicação se radique na incapacidade do Estado em se fazer entender e se dar ao respeito.

Não. A desobediência civil de que falo é o pequeno desrespeito à lei que todos nós fazemos, todos os dias. Todos nós. Néscios e intelectuais activos. Novos ricos ou velhos pobres. Trabalhadores por conta de outrém ou empresários por conta própria. Nacionais emprenhados ou habitantes por força do destino.

Cidadão ou Estado.

Portugal não respeita a lei porque entende que a lei está mal feita. Muitas vezes até estará, mas é desculpa suficiente para o seu incumprimento a nossa discordância?

O 25 de Abril acabou com o medo. Não o substituiu pela responsabilidade. Esquecemo-nos todos (nós, vós, eles) de aprender, de explicar, de fazer acreditar que, boa ou má, certa ou errada, inteligente ou estúpida, A LEI É PARA SE CUMPRIR MESMO SE EM SIMULTÂNEO SE CONTESTE.

Cidadania é saber separar as águas é, citando um outro contexto, uma outra visão, "não concordar com o que tu dizes mas defender até à morte o direito de o dizeres".

E volto ao princí­pio: acredito que esta ideia alguma vez se enraíze no espí­rito dos meus concidadãos? Não. Quem a irá impôr? Nestes tempos de populismos e demagogias múltiplas, onde encontrar o caminho para o implementar? Onde encontrar nos dirigentes a visão e a determinação necessárias, custe o que custar? Nos jovens que agoram se formam? Onde é que isso está escrito? Onde o exemplo de pais, professores e restante sociedade para o sedimentar? (E em que televisão tais valores seriam comerciáveis?)

Vês para onde me dirijo? Há alturas em que, numa sociedade, só uma revolução consegue impôr novos padrões.

E compreendes: não me apetecem ditaduras.

ANARQUIAS


AFINAL A ARQUITECTURA É POSSÍVEL

Numa cidade em que, para a obra civil mais comedida, é cada vez mais difícil encontrar projectos arquitectónicos estimulantes que consigam convencer os promotores de que qualidade não é necessariamente prejuízo, uma lufada de ar puro.


Num mundo cada vez menos diferente, com tudo a caminhar para a pasteurização, porque é que hei-de sair do meu casulo?

LISBOA É MESMO ASSIM



Esta imagem parece-me bem o retrato da cidade: dividida entre um passado petrificado e um urbanismo deslavado e bonitito.

FIRME E HIRTA COMO UMA BARRA DE FERRO!



Não há nada como a aparência da determinação para inculcar a aparência dos resultados.

O PLANETA SELVAGEM


Há muitos anos, no Vox. Também viste?

MAÇÃ COM CANELA

"Parámos numa pequena aldeia no sopé do monte, Konïgwald. As primeiras casas apareceram-nos ainda dentro da floresta, graciosas imitações da casinha de chocolate, imaculadamente cuidadas. Encontrámos um pequeno hotel, com uma sala de jantar deliciosamente quente. Aproximava-se o crepúsculo; a luz ainda era suficiente para dispensar candieiros mas a sala já se aproximava daquela penumbra que convida a uma meditação sonolenta em frente à lareira. Um olor magnífico a maçã começou a encher o espaço: doce, morno, farto de promessas. Trouxeram-nos duas fatias imensas de apfeltart que eu cobri generosamente de canela. E o chá dulcíssimo com remeniscências de framboesa e alperces fez-me desejar ter nascido alemão."
in Os Cadernos de Viagem de Abel Sotero, Alemanha e Aústria, sd

novembro 09, 2003

MATRIX INVOLUTIONS

Fui na expectativa de me divertir e passei quase duas a horas a bocejar. "Já vi", "cena comprida e chata", "diálogo embrulhado", "metafísica da matriz = metafísica da treta", "boring!" foram algumas dos comentários que fui fazendo para mim mesmo.

Até que, quase no fim, me animei com a suposta mega-batalha entre anderson e smith. Grande coreografia! Enormes efeitos digitais! "Boring..."

E para terminar, a ameaça da 4º matriz....

SHOOTING STARS

(Estou desde ontem à espera de uma aberta no blogspot brasileiro para albergar mais algumas fotografias, uma das quais serviria de suporte a este texto. Para não perder o embalo e a actualidade vai mesmo só o texto e a imagem será introduzida quando a Globo deixar).

PRELÚDIO
Voltar ao Grande Auditório da Gulbenkian ao fim de tantos anos foi um prazer, foi o relembrar de outras épocas, outros acompanhantes, solitários prazeres, entusiasmos partilhados (Bach por um Leonhardt ascético, Badura-Skoda em grande, as canções originais de Carmina Burana com a audiência a bater palmas a compasso, Lucinda Childs para uma sala com vinte pessoas no início e muito menos no fim...). Estar na Gulbenkian é pensar quão bom seria se o Estado tivesse aprendido com ela ou se o sr. Gulbenkian nos tivesse comprado o país todo ou, enfim, se o país todo tivesse em proporção o dinheiro que o sr. Gulbenkian tinha. Provavelmente ordenados chorudos pagam a competência e a dedicação equivalente, mas será só na abundância de dinheiro que se firma todo o trabalho magnífico que a Fundação desenvolveu desde o seu início? Não terá influência saber-se que as coisas são para se fazer, ao invés do Estado onde tudo é para se ir fazendo?

FALLING ANGELS

(a partir de fotografias @Fundação Gulbenkian)
No princípio, uma corrida. A competição, essa, só se inicia depois, com o começo da música e a oposição que se cria entre a sua sensorialidade e a racionalidade dos movimentos. Como se de um contraponto se fizesse a cerebralidade de cada gesto de cada bailarino face à "animalidade" dos ritmos que os tambores criavam.

Enquadramentos belíssimos. Luzes a sublinharem corpos ou partes de corpos. Sombras a sublinharem silêncios. Uma beleza indizível e o meu corpo a querer participar em oposição aos mesmos olhos que só queriam sorver em paz.

PRÉLUDE À L'APRÈS-MIDI D'UN FAUNE
Mais do que o todo, as pequenas partes desse todo. Os gestos egipcíos que me lembraram os filmes de animação checoslovacos. Novamente a luz, a construir, em cores e oposições ao negro. O bailarino que era bailarina, o fauno que busca fundir-se na luz e fundir a luz. O deslumbramento total.

LE SACRE DU PRINTEMPS
Existe uma dualidade clara entre os micro-tempos de cada sucessão de gestos de um bailarino, de um par de bailarinos e o macro-tempo de duração da peça: os primeiros são precisos, exuberantes, aliciantes, contagiantes; o segundo é tão heterogéneo no conteúdo que perde continuidade. Ver cada um dos quadros é um prazer; assistir ao todo torna-se incómodo. A música, feita (penso eu) para sublinhar uma narrativa, acentua ainda mais essa alienação do espectador. Sem a explicação narrativa, os climaxes tornam-se anti-climaxes, as pausas desalentos.

Um última interrogação: a parte inicial prévia à música de Stravinsky, acompanhada pelas Signatures Sonores de Robert Racine, serve para quê? A princípio entendi-a como a descrição do Inverno, quando tudo dorme sob a terra e o destino dormente é comum - assim se explicariam os movimentos de conjunto em oposição à individualidade que explode de seguida (com o início da Primavera vem o recomeço da vida). Mas, da leitura da coreógrafa no catálogo - "não existe história na minha Sagração" - fiquei perdido de razões. Ou, pensando melhor, talvez não.

Não me elucidas?

EFEITOS SECUNDÁRIOS

Voz amiga relembrou-me Ruy Belo. Encontrei num livro este poema assinalado, memória talvez de um outro Outono:

"É bom estarmos atentos ao rodar do tempo
O outono por exemplo tem recantos entre
dia e noite ao pé de certos troncos indecisos
cercados um por um de sombras envolventes

Rente às árvores vamos, húmidos humildes
Dizem que é outono, Mas que época do ano
toca nestas paredes que roçamos
como gente que vai à sua vida
e não avista o mar, afinal símbolo de quanto quer,
ó Deus, ó mais redonda boca para os nomes das coisas
para o nome do homem ou o homem do homem?

Banho lustral de ausência é este tempo
de pés postos na terra em puro esquecimento
E vamo-nos perdendo de nós mesmos, vamos
dispersos em bocados, vítimas do vento
ficando aqui, ali, nalgum lugar que amamos
Nada mais do que terra há quem ao corpo nos prometa
Quem somos? Que dizemos?
Reuna-nos um dia o toque da trombeta"
in Boca Bilingue, Ed. Ática, Lisboa, 1966

novembro 08, 2003

PS

Volto a repetir o que escrevi há algumas semanas: Ferro Rodrigues - de vitória em vitória até à derrota final.

DEMOCRACIA CLEAN

A elaboração da Declaração de Princípios da ND é um hino à capacidade de apagar dos seus mentores toda e qualquer poeira ideológica, todo e qualquer posicionamento político, toda e qualquer dedicação religiosa.

Ao acolher todos os quadrantes coloca-se em rigorosamente nenhum. Embora negue o politicamente correcto transforma-se no paradigma do politicamente correcto pela abrangência de referentes e pela ambiguidade dos mesmos. Afinal "Liberdade", "Igualdade", "Democracia", "Justiça", "Cidadania", "Ética" não são citados e defendidos por todos os restantes partidos? Onde a diferença - em dizer que são diferentes?

"Democracia Populista" seria muito mais apropriado.

FRUTO TROPICAL

novembro 07, 2003

A ESCOLA PORTUGUESA DO RENASCIMENTO

Triste país este que não disponibiliza editor para o melhor estudo português sobre a pintura portuguesa do Renascimento.

POPULARIDADES

De cada vez que uma manif corta o trânsito em Lisboa, de cada vez que o largo da Assembleia da República fica cheio, de cada vez que uma tribo ululante afina num coro de assobios - a esquerda rejubila. Triste alegria.

É pena que os democratas entre os democratas neguem a essência da democracia que ajudaram a criar: um governo é eleito para fazer o que acha que tem a fazer durante o tempo para o qual foi eleito; as eleições posteriores servem para traduzir o apoio ou o repúdio a essa mesma actuação.

Um governo que navega ao sabor dos ventos tentando evitar antipatias, dá no pântano que já conhecemos, com as consequências actuais.

Tudo isto é tão óbvio que me pergunto: porque é que o estou a escrever? Talvez porque já vi tanto escrito que deixava subentendida a desatenção dos seus autores.

PROTESTOS

No Portugal antigo, as relações cidadão/Estado eram mantidas por medo - o "respeitinho é que é preciso" de O'Neill espelha bem a hipocrisia e rasteirice que reinava. Infelizmente, trocou-se este respeitinho pelo desrespeito quando o que se pedia era um respeito mútuo. É no que deu uma revolução mal gerida que varreu numa mesma penada tanto práticas e concepções anquilosadas como valores que, por fundamentais à sobrevivência de uma sociedade, deveriam ter sido cuidados e preservados a todo o custo.

Vem esta teoria toda a propósito da crescente banalização do protesto a que se assiste no presente.

Exasperamos por o Ministério não nos colocar uma escola à porta de casa? Vamos a Lisboa em procissão e oferecemos um burro ao Ministro.
Temos esse direito.

Não gostamos que nos apontem falhas de formação profissional? Depomos capacetes e abafadores à porta do Governo Civil.
Temos esse direito.

O Senado troca-nos as voltas e vota com quorum mas sem a nossa presença? Fechamos a Universidade a cadeado.
Temos esse direito.

O Estado não baixa os impostos? Aldrabamos a contabilidade.
Temos esse direito.

O comboio não chega a horas? Vandalizamos a estação.
Temos esse direito.

Não gostamos da vida que nos dão? Assaltamos bancos ou insultamos a polícia.
Temos esse direito.

Se não percebemos onde estão os limites como é que temos a lata de exigir que não ultrapassem os nossos?

VIVA ESPANHA

O Viva Espanha "linkou-me" (ò Professor Malata Casteleiro: fica melhor lincou-me ou ligou-me?) à sua página.

Nem de propósito. Penso, desde há dois dias em escrever um post acerca das virtudes das instituições espanholas - das quais a mais recente (a "indigitada" princesa das Astúrias) me parece ser paradigmática - em comparação com as suas congéneres portuguesas.

É simpático que uma democracia não aceite ter como seu representante máximo alguém não plebiscitado. É aborrecido quando se constata que esse mesmo representante não se mostra à altura dessa representação, seja por falta de formação, seja pela imagem que transmite ou seja pela dependência que revela em relação a grupos restritos de cidadãos.

Não estou a pensar no caso específico do actual Presidente nem dos seus antecessores. Apenas gostei de ver uma monarquia preocupada em se mostrar em sintonia com a sua época, com o país e os cidadãos que representa e a fazê-lo com estilo.

ENGANEI-ME

Verifiquei, por descargo de consciência, a lista dos orgãos sociais do SLB. Ao contrário do que tinha concluído a partir de algumas notícia ouvidas durante a campanha eleitoral, o Prof. Fernado Seara não exerce nenhum cargo no clube. Pronto. Fico à espera então de ouvir os comentários em directo de Pedro Santana Lopes, Durão Barroso ou Jorge Sampaio ao próximo desafio europeu do Sporting.

HIS MASTER'S VOICE

Se bem me lembro.... dos dias em que a esmagadora maioria da comunicação social era pertença do Estado e, de televisão, só havia dois cinzentos canais controlados ferreamente pelo Governo de serviço, a aspiração maior dos consumidores dos mesmos era que a abertura à iniciativa privada viesse depressa e com ela a pluralidade de visões e opiniões. Em suma, mais diversidade, mais opinião, melhor democracia.

E o que temos no presente? Para além do conglomerado PT, duas televisões privadas que conseguem ser mais pro-governamentais que a própria RTP, com a fantástica opção de ter três pesos-pesados do partido do Governo estrategicamente distribuídos pela semana em actividades comentaristas. Tudo isto já vai sendo old news, eu sei. Velhas e escandalosamente actuais.

O que foi novidade hoje (pelo menos para mim) foi descobrir a existência de um Master Bigger Than Master ("maior que o Sol é Deus..."). O presidente da Assembleia Geral do Benfica a comentar o jogo em directo???

novembro 06, 2003

REABILITAÇÃO URBANA

(post longo e eventualmente desmobilizador para quem se desinteressa destas coisas...)

"Que reabilitação se pretende para o conjunto dos bairros históricos de Lisboa, mais concretamente para Alfama? Das opiniões escritas, feitas letra de lei, parece-me evidente presidir a toda a oficial filosofia de reabilitação um conceito de respeito pela matriz histórica do existente, não só no edificado como nas relações sociais de habitação e vivência do bairro, que se cristaliza na vontade de refazer mimeticamente, sejam os métodos construtivos e arquitectónicos, sejam os volumes, os espaços e relações interiores das habitações, sejam ainda os direitos adquiridos de moradores e ocupantes.

Ora tal orientação, louvável numa base de obediência ao que as diversas disciplinas envolvidas defendem como imprescindível – a memória histórica, a verdade arquitectónica, a originalidade sociológica -, torna-se praticamente impossível de completar, seja quando se sobrepõem as diversas visões entre si, seja quando se confrontam os limites do existente com a regulamentação nacional actualmente em vigor, seja ela no domínio da qualidade mínima do espaço habitacional (nomeadamente o RGEU, nomeadamente as áreas mínimas permitidas), na segurança das estruturas (Eurocódigos, Regulamento de Segurança de Acções, resistência dos edifícios a solicitações sísmicas), nos padrões actuais de conforto e segurança dos edifícios de habitação e não só (regulamentos respeitantes às diversas redes de infra-estruturas, RCCTE, Regulamento do Ruído), para mencionar algumas das condicionantes com que actualmente o Estado confronta e defende os seus cidadãos nesta área, no intuito louvável de capacitar o parque edificado nacional com condições que reflictam o progresso dos tempos, em contraponto aos tempos passados onde a norma na arquitectura civil era a de edifícios com condições de habitabilidade que negavam aos mesmos característica primordial de abrigo que os deveria caracterizar.

Ainda que, após tudo o que foi escrito, a prudência pareça aconselhar que a solução para cada caso provenha essencialmente das características quase únicas que esse mesmo caso apresenta, não convidando a generalizações sempre perigosas, parece-me no entanto essencial a existência de uma filosofia de base que não só permita identificar e balizar a vontade “política” que a CML põe por detrás da intervenção como, e porventura mais importante, constitua o ponto de partida obrigatório para qualquer programa de reabilitação e base de aceitação (ou abandono) do projectista responsável pelo mesmo. Ora a defesa pura e simples da manutenção do existente parece-nos (como demonstrado pelos exemplos dados), para além de formalmente ilegal (ainda que, formalmente, não exista regulamentação específica para intervenções em edifícios antigos), inconsequente face à relação custo/benefício obtida (basta atentar no resultado visível da maior parte das intervenções RECRIA, com deteriorações muito inferiores aos 8 anos minimamente aceitáveis).

Deste modo, se é aceite que os tempos da luz da vela, da água potável carregada em bilhas escada acima, do “lá vai disto!” janela abaixo e do fogareiro de carvão - contemporâneos da arquitectura que se quer preservar -, já acabaram e que é preciso dotar os edifícios de redes de infra-estruturas fiáveis e seguras (criando-as quando inexistentes, reformulando-as de acordo com a legislação actual nos restantes casos), introduzindo assim acrescentos em relação à “pureza” original da construção, por maioria de razão se deverá aceitar que o tempo das estruturas frágeis - construídas na maior parte das vezes pela mão-de-obra sobrante da reconstrução pós-terramoto das zonas nobres da cidade (e, como tal, com poucas habilitações ou qualidades profissionais) ou, posteriormente, para um destinatário com poucas expectativas ou recursos financeiros -, terminou, pelo que é necessário dotar o edifício de uma estrutura que resista tanto às solicitações diárias de cargas estáticas, como tenha um desempenho de segurança mínimo (isto é, que permita uma evacuação rápida segura dos seus ocupantes) face às solicitações dinâmicas. Ora tal estrutura é incompatível com os métodos utilizados na construção original – materiais de má qualidade, argamassas pobres, uma organização estrutural que resiste pouco e mal – pelo que está fora de questão uma recuperação segundo uma mesma filosofia. Infelizmente para o tempo presente a racionalidade pombalina torna-se economicamente desaconselhável (falta de mão-de-obra especializada, materiais caros), pelo que se torna óbvio que, também a nível estrutural se deverá optar pela utilização de técnicas contemporâneas devendo, aí sim, a opção por uma ou por outra ser função das condicionantes de cada caso.

Quanto à manutenção das condições interiores de cada fogo, o problema é semelhante: poderá um projectista, após a defesa da criação de infra-estruturas que garantem um conforto mínimo de utilização do espaço, oferecer ao habitante um espaço ele próprio sem condições? Isto é, valerá a pena fornecer águas e esgotos a uma casa-de-banho onde os movimentos são tolhidos pela exiguidade do espaço? Fornecer gás e electricidade a uma cozinha onde a existência de um fogão e um frigorífico torna extremamente difícil, pelas suas reduzidas dimensões a confecção de qualquer refeição? Não negamos o facto de, uma vez que estas condições já existirem antes, não as estarmos a criar, antes a prolongá-las. Mas valerá a pena o esforço financeiro para tão magro resultado, principalmente se tivermos em conta que, como referido, a intervenção é, na maior parte das vezes, em casa alheia? Esta é, no entanto, uma questão que, mais do que técnica é eminentemente política, no seu sentido mais abrangente, ou seja, é uma questão da política de intervenção camarária dos bairros históricos que ultrapassa a vontade e o desejo do projectista. Enquanto no que respeita às questões de segurança compete ao projectista, não só comentar como opor-se à execução de trabalhos que não a verificam, em relação a questões de conforto e economia apenas se sente no direito de as enunciar e questionar, pelo que, a última palavra caberá sempre à CML.

De cedência em cedência (ou, o que seria pior, de ilegalidade em ilegalidade) se poderia assim continuar a escrever a história da reabilitação dos bairros históricos, não fora o caso pioneiro dos Projectos Integrados onde, ao se tomar consciência de que a reabilitação do edificado teria de ir abandonando a casuística que a urgência sempre comporta (e, nos casos extremos de Alfama e da Mouraria, será mais correcto falar de extrema ou desesperada urgência) e passar a encarar intervenções tendo como base mínima, não o edifício, antes o quarteirão, se deu um passo decisivo para não só resolver problemas estruturais que extravasavam a unidade construída, como permitiu economias de escala na intervenção e evitou sobreposições ou incongruências no projectado.

Neste cenário de real progresso de métodos e meios resta, no entanto, uma perturbação pertinente que se prende com o facto de se estar a intervir em quarteirões cuja propriedade, para além de não pertencer, na sua maioria à CML, não é homogénea – como projectar alterações que, ditadas por questões de segurança, serão significativas em termos de áreas úteis, por exemplo, em fogos recentemente reabilitados pelo proprietário ou inquilino? Como justificar economicamente o investimento profundo num edifício que, aparentemente é, em termos de risco, de Grau “C”, face às carências registadas em edifícios muito próximos, com um visível maior estado de degradação? (...)"

MISTÉRIOS

Textos que desaparecem (os escritos entre 2 e 5 deste mês) mas que se conservam na página de edição... Mistérios dos electrões que trocam, por vezes, os 1s pelos 0s...

RAZÕES

Eu sei que tu achas uma possidonice ouvires-me dizer "Vês? Eu não te dizia?" mas tenho de o escrever.

O Expresso descobriu a Maria Rita e lá começam a aparecer os comentários por aqui e por ali. É por isso que eu gosto dos blogs: já tinha escrito sobre ela em 7 de Outubro, com link audível e tudo.

O Presidente da República, descobriu os problemas que o país começa a atravessar no que à Medicina e aos médicos diz respeito. É por isso que eu gosto dos blogs: já tinha escrito sobre isso (foi há menos tempo) no dia 27 de Outubro.

A soberba é uma coisa feia.

VOCABULOVO

E porque é que só o Dr. Malata Casteleiro é que pode inventar vocábulos novos?

Senilandrices!

LÉXIAS

De aorcdo com uma pqsieusa de uma uinrvesriddae ignlsea, nao ipomtra
a odrem plea qaul as lrteas de uma plravaa etaso, a úncia csioa
iprotmatne é que a piremria e útmlia lrteas etejasm no lgaur crteo.

O rseto pdoe ser uma ttaol csãofnuo que vcoe pdoe anida ler sem
gnderas pobrlmea. Itso é poqrue nós nao lmeos cdaa lrtea isladoa, mas
a plravaa cmoo um tdoo.

Cosiruo não?

novembro 05, 2003

TEREMOS CAÇADORES ENQUANTO HOUVER CAÇA

"O recurso às receitas extraordinárias é uma medida provisória que só existirá enquanto a despesa do Estado fôr maior do que as receitas."

Não sei se fique mais deprimido com o destaque que a TSF deu à frase ou com a lapaliçada da ministra que a proferiu.

Também poderia ter afirmado em alternativa,

"- Fiquem descansados senhores deputados que o Estado só venderá as coisas que puderem ser vendidas"
ou
"- Se o Estado não tivesse despesa não precisava de se preocupar com défice..."
ou
"- Se fôssemos espanhóis era o Aznar que andava preocupado em vez de nós..."
ou
"- Se o doutor Mário Soares não tivesse assinado a porcaria do tratado de adesão, não tí­nhamos de nos preocupar com as multas da União Europeia"
ou ainda
"- Quem mandou os portugueses dar a vitória ao PSD nas últimas eleições?",

que o resultado era à mesma uma nulidade.

Que não havia nem imaginação para medidas alternativas nem coragem para medidas ousadas já se sabia. Mas nem um bocadinho de dotes retóricos para rebater acusações da oposição...?!

TRAGAM-ME A CABEÇA DE ALFREDO GARCIA!

Atingimos o último degrau da hipocrisia institucional.

A partir de hoje, os ministros da Educação e do Ensino Superior não podem dizer que há estudantes que não sabem a matéria. Porque correm o risco de ser demitidos por pressão das associações de estudantes.

A ministra das Finanças não pode dizer que há empresas que não cumprem as suas obrigações fiscais. Porque corre o risco de ser demitida por pressão das associações patronais.

O ministro do Trabalho não pode dizer que há trabalhadores que são absentistas. Porque corre o risco de ser demitido por pressão da Intersindical.

E pode o ministro da Agricultura dizer que os bombeiros voluntários não têm formação para apagar fogos florestais? É que já há pressões da Associação de Bombeiros Profissionais...

MUDANÇA DE MOEDA VERSÃO BRASIL 93

GIOVANNI BONONCINI

O excesso saboreia-se com parcimónia, mas é sempre um prazer.

"Io che d'Amor nemica
non volli il foco suo dentro al mio seno
di Tirsi, e di Fileno al acerbo dolore,
io che negai mercede,
ardo d'Amore.
Deh chi m'aita? Ahi lassa,
chi mi socorre, o chi mi da la morte?
Dite, dite a chi passa
O Rivi o Piante
che per sua fiera sorte
LA NEMICA D'AMORE E' FATTA
AMANTE"

novembro 04, 2003

CAMILIANA


"Espaços de morte onde é nobre celebrar a vida. Gosto da solenidade que os franceses colocam no culto da sua morte. O industrial que encomenda uma estátua jacente onde se retrata de casaca e chapéu alto semi-deitado na cama conjugal. O anjo que atira um braço ao ar, acentuando o caminho para o céu do desconhecido que jaz sob os seus pés. O jazigo de inspiração bizantina. Gosto da audácia de quem encomendou este beijo a Brancusi. Na austeridade de linhas e formas, traça toda a paixão que existiu, o Amor de quem fica e de quem já não é."
in Os Cadernos de Viagem de Abel Sotero, Paris e outros espaços, sd

GRAFICIDADES

OS MEUS PIPIS

(Com os meus agradecimentos ao Substrato, por me relembrar a questão)

Alguns pontos para reflexão acerca do projecto de Siza Vieira para Alcântara

1. Finalmente a cereja no cimo do bolo. O Presidente da Câmara de Lisboa mata os coelhos todos de uma vez. A saber:

- Homenageia o inventor das torres do restelo, eng. Abecasis, colocando-se, por reflexo, ao seu ní­vel (para a direita, é um bom ní­vel);
- Consegue o que João Soares não conseguiu - um falo num Bairro histórico;
- Ultrapassa todos - multiplica por três e põe-os à vontade do freguês, com cores e formas diferentes;
- Tira o trânsito das Amoreiras - tanto metro quadrado de escritórios necessita de muito automóvel;
- Acaba com a necessidade de um PDM para a cidade, já que qed, a cidade cresce muuuuuuito bem sem ele.

2. Fica definitivamente demonstrada a influência que o discurso mata-mouros do presidente do fcp tem sobre os arquitectos do porto. Mais uma vez se experimenta em seara alheia, em autismo completo com o lugar, o sentir, a envolvente. Andrade go home.

3. Eu gosto de arranha-céus. O vale de Odivelas merecia uns, a terminar bem acima das colinas que rodeiam Lisboa, uma espécie de postos de observação aliení­genas.

4. A Manhattan de Cacilhas teve muito mais Graça. Não era para ser levada a sério e cumpriu muito bem a função para que foi criada - provocar a discussão e fazer uma tremenda publicidade de borla aos autores do ante-projecto.

novembro 03, 2003

CONTAS

Eu que sempre me bati pelo primado da compreensão face à memorização como caminho para a aprendizagem, vejo-me a fazer um comentário a um post da Sofia no Uns e Outros que é a negação desse princí­pio.

Tenho, ao longo dos anos, assistido à crescente incapacidade das gerações mais novas do que a minha em conseguir executar mentalmente os mais elementares cálculos aritméticos. Não são só caixas de supermercado a quedarem-se imóveis à espera que a registadora debite a soma a devolver ao cliente. São crianças no ensino básico para quem uma multiplicação de 4 por outro número se revela um obstáculo intransponí­vel; alunos de liceu em estádio pré-universitário a contar pelos dedos; licenciados que se confessam "com pouco jeito para as contas"; profissionais em princí­pio de carreira cujo sucesso da actividade profissional se baseia em cálculos bem executados empacados em pormenores aritméticos. Todos estes problemas "graças" a um método de ensino que se propôs fazer compreender a mecânica de somas e multiplicações a crianças de 6, 7 anos.

Para mim, não faz sentido este medo da memorização sem explicações, da tabuada. Em primeiro lugar, porque a minha experiência de vida nunca encontrou em ninguém submetido ao método "arcaico", lesões, traumas ou bloqueios de qualquer espécie, antes uma natural capacidade para resolver "de cabeça" as 4 operações aritméticas básicas. Em segundo lugar, porque há coisas que primeiro se decoram e depois, com o passar dos anos se vão compreendendo.

Acredito que, para mentes mais fundamentadas do que a minha na ciência da pedagogia, faça sentido ensinar previamente linguí­stica a quem aprende a falar, teologia a quem aprende as primeiras orações, polí­tica a quem aprende o hino nacional. Dou de barato que a minha posição possa ser retrógrada, pouco fundamentada teoricamente enfim, anti-pedagógica. Mas então porque diabo é que já ninguém parece saber fazer contas?

E se me disserem que não é importante saber fazer contas "de cabeça", bah - a minha gargalhada de desprezo.


DO ESCURO DA NOITE NOS VEM


a esperança da imortalidade ; o fervilhar da vida

novembro 02, 2003

OBRIGADO FRANÇA!

Afinal, andamos nós, portugueses, abatidos sob este pesado fardo da fraca auto-estima e o governo francês inveja-nos! E não penses que foram apenas palavras de circunstância que levaram o primeiro-ministro francês a declarar que "a França deve chegar ao ní­vel de Portugal em diversos temas" (in Publico, 1-11).

Não!!! As medidas para a desburocratização do país que têm vindo a ser implementadas desde o governo PS começam a dar frutos e já são objecto da análise e estudo dos seus congéneres estrangeiros (primeiro os franceses, mais sagazes e cosmopolitas, os outros virão a seguir). De facto, o tamanho das folhas de salário portuguesas (uma página!) é muito menor que o correspondente francês (duas páginas), passo importantí­ssimo para o desenvolvimento de um paí­s. Este o tema que Raffarin deu como exemplo - e que bastou!

Depois da recepção em Angola, este elogio europeu deve ter deixado Durão Barroso na Lua. Somando a isto a reeleição de Guterres para a IS, quem é que pode andar deprimido?

WESTMINSTER

Neste glorioso interlúdio de Sol no que, provavelmente irá ser um Outono/Inverno carregado de chuva, sintonizo a Antena 2. Caio em cima da audição do Requiem versão Hermann Scherchen. Eu, que oscilo entre a contida visão de época do Jordi Savall e a grandiosidade de Bruno Walter comovi-me com a voz de Sena Jurinac (que não conhecia) e com os elogios dos locutores, tanto no que respeita à versão como à editora, uma Westminster quase mítica para os melómanos dos anos 50.
.
Procurei-o na fnac - milagre! estava à venda. Ao lado, o concerto para piano K466 pela Clara Haskill meu entusiasmo adolescente, dos tempos da biblioteca do Goetthe Institut e da saudosa senhora que a comandava, a perfeita mão de ferro na luva de veludo (que pena ter-me esquecido do seu nome... alguém se lembra?). Há muito tempo que não encontrava uma reedição nova de Haskill. Compro-a sem hesitar (e distraído, sem olhar para os pormenores). Só em casa vejo que a etiqueta é a mesma.

Leiam e oiçam aqui.

OLHA LÁ

... tu que me vens lendo, não te importas de dizer qualquer coisinha? (O meu counter não me dá a tua morada)

A VENDA DA DÍVIDA

O Estado vende a sua relação com os cidadãos por um prato de lentilhas. A partir de agora, qualquer contribuinte com dívidas ao fisco ou à segurança social vai ter de pensar duas vezes antes de entrar numa rua mal iluminada, sair à noite para comprar um maço de cigarros ou deixar a carteira com os cheques em casa. A probabilidade de ser apanhado por dois gorilas de fato escuro e gravata fina, sotaque de Brooklin e uma soqueira no bolso que pedirão tão delicadamente quanto a situação os obrigue a pagar "a dividazinha" será mais que muita.
Se isto não é doença...

O FIM DA HISTÓRIA?

Leio isto,

" (...) o consumo de água potável atingiu o dobro da sua taxa de reposição natural; as florestas tropicais desaparecem à velocidade de cerca de 1% ao ano; a população humana está a duplicar a cada 52 anos; os cinco anos de maior temperatura global alguma vez registada aconteceram todos na última década (sendo 2002 o segundo ano mais quente); (...)" [in Alimentos Transgénicos Um guia para consumidores cautelosos, Margarida Silva, Universidade Católica Editora, 2003]

O currículo da autora (doutoramento em Biologia Molecular, coordenadora do grupo de estudos ambientais da Escola Superior de Biotecnologia da UCP) torna-a insuspeita de inverdades ou histerias injustificadas.

Surgem-me assim duas perguntas: alguém se interessa pela resolução destes problemas? E mais preocupante: que solução há para estes problemas?

TÍTULOS

Ontem, na estrada em direcção a Lisboa. À minha frente, uma carrinha com um dístico: "SadoMocas".

Apanhei um susto. Já se publicitam coisas destas assim? Afinal era "SadoMacas".

Mas quem é que se lembra de um nome destes para um serviço de ambulâncias?

novembro 01, 2003

TRAINSPOTTING

OS POMBALINOS

A Baixa Pombalina prossegue o seu desbravar incansável da arca lisboeta. Busco na minha arca e retiro este exemplo de como pode ser enganosa a nossa esperança na correcta engenharia de santos/maia/mardel:

A estrutura das paredes é um sucedâneo da estrutura gaiolar feito 100 anos depois. Após a retirada do estuque e material de enchimento, o que restou foi uma colecção de peças de madeira semi-apodrecidas, semi-comidas, com alguns dos apoios inexistentes. Não tenho dúvidas que o cuidado posto nestas construções oitocentistas foi muito inferior ao tido 100 anos antes pelo que, provavelmente, tais situações não serão tão frequentes na Baixa. Mas que as há, encobertas por muito reboco e muita fé, lá isso há.

Quanto ao final da novela: no dia em que houver um sismo aproximado ao de 1755, muita gente andará a enterrar os seus mortos e a cuidar dos seus vivos.