maio 31, 2004

DOMINGOS


Um Domingo na Feira do Livro é igual a um Domingo em qualquer lado que atraia os lisboetas: deprimente. A única vantagem é que sempre vai havendo livros para abstrair.


maio 29, 2004

FUGAS

Relata a DGI que, no ano passado, foram os empresários quem mais fugiu ao fisco. Pode o Estado dar-se ao luxo de ser juiz em causa própria. No entanto, tenho a certeza que, no ano passado (e no corrente...) quem mais fugiu às suas obrigações no que toca a pagamentos devidos foi esse mesmo Estado, principalmente autarquias, organismos públicos e aqueles orgulhosos monumentos guterristas no presente transformados em ancilosados mastodontes que são alguns programas POLIS.

maio 27, 2004

A CÔR DE LISBOA

A côr de Lisboa, a côr de Lisboa... A côr de Lisboa entendida como a transmitida pela maioria dos seus edifícios antigos ou melhor, a côr predominante nos edifícios antigos de Lisboa, a côr padrão, a côr primitiva, a côr histórica - é uma falácia.
Se alguma conclusão se pôde tirar das amostras retiradas por sucessivos descasques dos edifícios da freguesia do Castelo num afã de, definitivamente, obter a norma para a reabilitação, é a de que a côr de Lisboa... eram todas (todas as possíveis de ser reproduzidas nas tintas do passado, note-se), caindo por terra a anunciada (desejada?) supremacia dos rosas ou dos azuis celestes, dos cremes, dos brancos sobre as restantes cores que, durante os tempos foram sendo anunciadas por este ou aquele "especialista", por este ou aquele "iluminado". (Nunca me esqueci da esfrega que levei do arq. Troufa Real quando lhe perguntei, numa aula, se ele não achava que Lisboa era uma cidade branca: que não, que nunca, que ignorância - Lisboa sempre foi colorida! -Eram ainda o tempo da sua partnership com, TTaveira para o concurso do Martim Moniz (e aí interessava que Lisboa fosse rosa e azul)).
Acresce a esta multiplicidade de propostas que o passado nos legou a impossibilidade prática de, mesmo várias, as reproduzir validamente, sem aprofundados estudos de laboratório: toda a gente sabe que a luz come a côr - o problema é de que maneira a côr se desvanece e quantos anos depois querer-se-à ver chegar a côr "ideal". Muitas perguntas para uma regra que se queria definitiva: pinte-se desta ou daquela referência na Mouraria, daquela e doutra no Chiado, daqueloutra na Madragoa!
Desistiu, envergonhada a Câmara de ser sabichona!
E é por isso que, para mim, a côr da cidade continuará a ser uma só: aquela que sendo a ausência de todas se constitui como a sua súmula. Digam-me lá: quando passam a ponte sobre o Tejo (qualquer delas) e olham a cidade - não importa a hora do dia, a estação do ano - não vos aparece sempre ela, gloriosa, esplendorosa, radiosamente alva, uma verosímil VILLE BLANCHE?

maio 26, 2004

APRESENTAÇÕES

A Marta apresentou, eu gostei:
- O Olho do girino.
Acrescentei igualmente à lista lateral o Miniscente, o Ma-Schamba, o Eternuridade, o little black spot.

PS - E o Extractos que estava na lista há que tempos mas, por uma razão ou outra, ainda não tinha sido adicionado.

MALANDRICES


Porque não desistiremos de cumprir o nosso desígnio e levar o nosso propósito avante.
A NÓS NINGUÉM NOS PARA!!!

HINO

Descobri o novo hino deste país. Na versão original é interpretado pelos The Black Eyed Peas mas tenho-o ouvido ser recantado em crescendo por cada vez mais gente: na Assembleia da República, nos estádios de futebol, na boca dos dirigentes partidários, nos programas televisivos nacionais, em mesas-redondas, debates, artigos de opinião, presidentes autárquicos, técnicos camarários, colunáveis, colunistas, socialites, socialistas.
Chama-se "let's get retarded".

CALOTICES

Se vantagem houvesse, começaria aqui a exposição pública dos diversos clientes caloteiros que assobiam para o lado quando chega a hora de pagar. Infelizmente este blog não é filho de gente que vai a congressos e, portanto, pouco impacto teria a sua divulgação.Ora bolas.
Mas como estou cada dia mais chateado, fiquem sabendo que quase todos são câmaras - há também algumas sociedades POLIS. Mas desfaçatez maior é, em dois casos, as empreitadas estarem a caminho da adjudicação.
E ainda querem que eu trabalhe durante o Euro.

FEIRA DO LIVRO

Este ano a Feira do Livro não me tem trazido naquele frenesim do passado em que quase se tornava imperativo ir lá todos os dias. Será da orgia ocnsumista que me atacou nestes últimos doze meses? Ou será da contenção de despesas que o ministério das Finanças impôs às autarquias? Dr. Santana, não se importa de mandar pagar o que deve?

maio 25, 2004

CENSURAS

Não consigo aceder directamente ao meu blog - não através do seu endereço no blogspot. Consigo, no entanto, aceder via blogger: dá para escrever e postar e, carregando na tecla "view blog", entrar, finalmente, na página. Que raça de censura parcial é esta?
(Aos que me leem: podem fazer feedback do que vos acontece?)

OLD BUILDINGS


Uma das coisas que mais me encanta na vivência de um edifício antigo, é a súa característica de cápsula de tempo, a possibilidade que quem o visita tem de se aperceber de um outro modo de estar, de viver, de sentir, de olhar.
A biblioteca do LNEC é um desses momentos, parada entre os anos 50 e 60. Cheira a papel - o que é um cheiro magnífico, tem verde à volta e um ar que parece ter parado há muito sem ter morrido.
É como se fosse um episódio do Heimat que me marcou e que, para mim, simboliza esses anos que não vivi. Não sei explicar. Só sei sentir.

maio 23, 2004

CARTOONS

Como seria de esperar, teve pouco eco em Portugal a polémica criada no Brasil há poucas semanas com o artigo do correspondente no Brasil do New York Times onde se fazia alusão a um suposto problema com a bebida do Presidente Lula e a subsequente ordem de expulsão do autor. Já por lá, a polémica deu mais para o riso do que para o siso no que toca à população que, no seu jeito gozão de encarar a vida, teve oportunidade de se deciar com piadas do tipo das que o Kibe Loco publicou no seu blog. Óptimas.

A CML E OS SEUS FISCAIS

Perante tudo o que se passa em Lisboa no sector da construção, eu diria que os fiscais municipais têm um défice de formação que muito os penaliza no desempenho das suas funções. Este défice incide basicamente na falta de insistência por parte das chefias em realçar que o principal instrumento de trabalho de um fiscal não é a caneta, nem o papel, nem a fita métrica, nem o esquadro (sim, conheço histórias de obras embargadas porque o telhado tinha mais meio grau de inclinação do que o que estava indicado no projecto): é o olhar. É verdade: para se bem fiscalizar, é preciso olhar! É claro que não vale olhar de lado, olhar para o ar, olhar para ontem, fazer olhos de carneiro mal-morto... - é preciso olhar e ver. Bem.
Esta fotografia estava para ser tirada desde que vi a estrutura do prédio começar a ser erguida - esperei mais uns tempos porque sempre pensei, na minha ingenuidade, que a obra iria ser embargada assim que a equipa da Câmara passasse na sua fiscalização habitual. Nada. O prédio está quase pronto e ou a rua é mudada de lugar ou, qualquer dia, há um peão que é atropelado ao sair do passeio para a rua porque o pilar não o deixava passar. É grave que estas situações aconteçam? Não! Seguindo os ensinamentos do Portugal positivo, temos de nos regozijarmos com as centenas de pilares que são implantados nos lugares correctos. Este foi um pequenino erro de cálculo e não tem nada a ver com a corrente falta de qualidade na construção, na fiscalização e na direcção de obras. Eu é que sou um mal-dizente.

"UMA SÓ VIA: SOCIAL-DEMOCRACIA!"

Longe vão os tempos em que este slogan se ouvia sempre que havia um comício do PSD. Hoje o partido, para além do realinhamento à direita motivado pelas companhias da coligação, está mais que infiltrado de ultras que, na aparência, vestem a pele programática de Sá Carneiro mas que, na sua estratégia de aranha, vão laboriosamente tecendo os caminhos secretos de quem os inspira. Há de tudo: desde militantes furiosamente anti-aborto com claras ligações à "Obra de Deus" a carreiristas anti-comunistas primários para quem a ideologia pouco vale desde que se proteja a sagrada trindade do lucro, da liberdade pessoal e do status quo fiscal.
Lembrei-me deste slogan quando ouvia ontem as palavras de Durão Barroso sobre o deficit democrático dos Açores. Como apanhei as frases a meio, ainda pensei que o homem estava a dar uma esfrega pública no chileno Jardim (descobri outro dia que os continentais são "cubanos" não por qualquer animosidade rácica mas por oposição à superioridade "chilena" dos madeirenses em 75). Ainda tive um começo de optimismo (influências do apoio de Marcelo ao "portugal positivo") - incrédulo, claro, mas na expectativa - que logo foi desfeito: afinal o ataque era aos Açores.
Ora que diabo. Então depois de uma semana a endeusar o sistema político madeirense, com desejos do mesmo se estender a todo o país, vão contradizer-se, atacando o preciso local onde o efeito Alberto João mais se faz sentir?

maio 21, 2004

FORÇA LISBOA

A Câmara Municipal de Lisboa inaugurou hoje o seu programa "Lisboa em Força" com a abertura da Feira do Livro. Ao transferir as tradicionais barraquinhas de editores e livreiros para perto do cume do Parque Eduardo VII, a autarquia pretende aliar a cultura do espírito à cultura do corpo: não restam dúvidas do tipo de preparação física que é preciso ter para aguentar sem esforço o percurso completo de todos os expositores!
Recomenda-se, no entanto - face aos problemas surgidos em programas desportivos similares (veja-se os casos de insuficiências cardíacas ocorridos entre os participantes da última Meia Maratona de Lisboa) - a instalação de um centro de emergência médica no Marquês. É que a Feira também costuma ser frequentada por gente mais sedentária pouco habituada a aventuras destas: idosos, donas de casa, obesos, hipertensos...

(MAIS) PORTUGAL POSITIVO


"Quando o espectro de Goebbels me ensombra e me agride com mais
Guerra mediática
E a sua matilha se maquilha
Quando essa escolha cuidada de coisas reais ficcionadas, iguais (...)"


Só um José Mário Branco muito positivo acharia que se pode fazer uma canção a partir destes versos.

PORTUGAL POSITIVO



Do alto desta janela
Eu vejo a minha cidade
A minha Lisboa bela
Viva, viva a liberdade!

YESTERDAY'S BUZZWORD (bis)

TRADUÇÕES

Um desconhecido pretendente a leitor deste Planeta, impossibilitado de cumprir a sua generosidade pela deficiência inata que apresenta de não compreender o português, pediu ajuda ao tradutor automático do Google e o resultado foi o que se pode ler aqui.
Fico reconhecido pela intenção. E atendendo a que, após a leitura da página traduzida, ainda deve ter ficado a compreender menos o que por aqui se escreveu, prefiro agradecer-lhe na sua língua-mãe:
- Thank you very nice, mine!

(YESTERDAY'S BUZZWORD)

maio 19, 2004

EM LOUVOR DAS EMPADAS


Uma empada é como uma carta: desconhecemos à partida se ela nos traz boas ou más notícias, se o seu conteúdo nos tornará o dia mais suave ou para sempre marcará o lugar onde a provámos como palco de uma má recordação. Em Lisboa sempre se comeram empadas: exoticamente improváveis para outras gerações nos idos de quinhentos, superiormente galicistas nos tempos de Eça, as empadas do presente contêm recheios múltiplos que podem ir do fugidio camarão em cama de molho roux à carne picada quase seca, com vizinhança acebolada e uma suspeição de salsa.
Más empadas são as que se servem de carnes cozinhadas ante de ser picadas: dão sempre a sensação de ter passado por prévios palatos. Más empadas são também as que admitiram o frango na sua totalidade caindo-nos em sorte uma cartilagem atroz ou uma gordura mais renitente ao calor.
Mas o deleite de trincar uma massa folhada estaladiça ou uma massa de areia no equilíbrio precário entre a resistência ao toque da mão e o desfazer-se na boca! Quem nunca se deleitou a olhar o Tejo em simultâneo com o saborear de uma empada de camarão ainda quente não sabe ainda olhar o Tejo. Quem nunca parou na antiga Favorita da Rua do Ouro para matar a gula com uma empada de vitela não sabe viver a Baixa. Quem nunca perdeu o vagar num café da avenida de Roma ao ritmo de uma bica e de uma empada de galinha, perdeu um tempo e um estado de espírito da cidade.
Empadas há muitas. Mas só as da nossa eleição são nossas.

PEQUENO ALMOÇO ALEMÃO

OS EDIFÍCIOS POMBALINOS SÃO RESISTENTES A SISMOS!

Ando há umas semanas para comentar a notícia que correu jornais e televisões sobre a investigadora do Técnico que foi premiada pelo Governo pela sua tese sobre a resistência da construção pombalina tipo a solicitações sísmicas (esta das "solicitações"... seria de esperar uma palavra mais agressiva, um sismo não solicita, exige, mas enfim... os engenheiros sempre foram pessoas sem alma de poeta).
Quando a ouvi pela primeira vez, desconfiei: há muito que me convenci, pela observação directa que fui fazendo ao longo dos anos, que a Baixa do presente tem muito pouco a oferecer da segurança inventada pelos técnicos do senhor Marquês há 250 anos, tantas foram as adulterações efectuadas à estrutura em gaiola original.
Depois lá ouvi a senhora engenheira e percebi que a investigação se centrara num modelo original de gaiola - e mesmo esse apresentava algumas deficiências ao nível da ligação entre pavimentos e paredes resistentes periféricas.
Ora abóbora! Que o original era bom, já se sabia (está bem, agora sabe-se não só empiricamente como matematicamente). O que me parece seria importante fazer era o levantamento de todos os edifícios, as suas alterações - acrescento de pisos, vazamento de pisos térreos, destruição de paredes resistentes ao nível da cave, como eu vi!- criar um modelo tipo da estrutura alterada e, então sim, estudar o seu comportamento às solicitações sísmicas. Ficaríamos bem mais próximos da realidade.
E provavelmente da inquietação.
Assincronias destas, entre a realidade e o mundo teórico, são hábito nas nossas universidades, mas o mundo português continua contente: os jornalistas com mais uma notícia feliz, o Governo com mais um português que investiga, o Técnico com mais um investigador premiado, a engenheira com mais uma estrela no currículo. A Baixa? Bom, se ainda houver por aí algum edifício pombalino que mantenha as características originais, pode ficar descansado: se os cálculos estiverem correctos, vai aguentar-se no sismo que está para vir.

BAIXA A PATRIMÓNIO MUNDIAL

Na sua actividade frenética de anunciar medidas dispersas que tarde, nunca ou mal se concretizam, despachou agora a Câmara Municipal de Lisboa para as redacções dos jornais a sua intenção de apresentar para a semana a candidatura da Baixa Pombalina a Património Cultural da Humanidade (assunto por demais debatido na Baixa Pombalina desde há uns meses).
Para além do óbvio alcance mediático, não sei que bem poderá vir dessa classificação - se é que a UNESCO vai levar a sério a intenção protectora da CML -, uma vez que, até agora, não vislumbrei, por parte da autarquia, um fio de pensamento condutor, uma visão global dos problemas e das soluções e - o mais importante de tudo - uma ideia para o futuro da Baixa.
Esta candidatura parece a política económica do Governo: trata-se do pavimento da estrada sem se saber para onde é que ela se dirige. Acaba-se por se ficar parado no meio do deserto sem gasolina e sem bomba para abastecer à vista.

maio 18, 2004

A CRISE CONTINUA

Os bilhetes para a final da Liga dos Campões, com valores entre 60 e 120 euros, estão quase esgotados. Isto é que vai uma crise.

DESCAETANEAR

Estou , desde ontem, a ouvir o último disco de Caetano. Para além do desgosto de o ver reduzido a crooner de canções alheias, fica a desilusão de uma obra feita para cumprir calendário ou uma tentativa de conquistar (ainda mais?) o mercado anglo-saxão.
Noto aqui uma contradição nesta declaração de amor e reconhecimento pela música americana: é este o mesmo Caetano anarquista, sem lenço nem documento, o Caetano de esquerda que se diz desapontado com Lula? Sim, a arte não tem ideologia nem bandeira... Mas o disco é de um tédio insuportável, a selecção das canções fraquinha e heterogénea demais ("Summertime" com Feelings", "Cry me a River" com "It's all right Ma (I'm only Bleeding)") e a voz de Caetano arrasta-se, arrasta-se... O que resultava noutros tempos e com música de outras latitudes (por exemplo, a doçura da interpretação de "... Paloma") aqui torna-se chato, chato, chato.
Para não me render à quase evidência que Caetano burgueseou, só me resta a esperança de que este ser um disco panfletário, como se Cae dissesse: "vejam, o imperialismo cultural americano é tão forte que me obriga a fazer esta droga de disco com esta droga de música". O que também, convenhamos, é um exagero. Não havia necessidade...

maio 17, 2004

O ARROZ PORTUGUÊS


Não há prato mais evocativamente português que um arroz “malandrinho”, penso quando contemplo um, esparramado numa cadeira de ferro de esplanada de restaurante do Bairro Alto. (As limitações de trânsito que o presidente da câmara impôs permitiram este avançar para o exterior – carros continuam a passar ocasionais. O susto é maior por sentir uma bocarra ruidosa a cuspir fumos ao nosso lado, mas os silêncios também aumentaram.) Está um azul de Lisboa no céu e as sombras que cobrem quase toda a rua (ruas estreitas com prédios suficientemente altos para as tapar) são um consolo.
O arroz. Tomate e pimentos. Combinam a perfeição de um contraste simultâneo com a exaltação do seu gosto. Cheirar um arroz destes é fazer como Jacinto: deixar os olhos desfocarem-se de um princípio de lágrimas e sentir um absurdo orgulho em ser português. Trincar uma tira de pimento é reclamar para si a gesta anónima dos hortelões que, durante séculos, abasteceram a cidade, é sentir a premência da terra onde cresceram, é fazer parte de uma primavera sempre renovada. Carnudo como o corpo por quem se anseia, excitante como a pele que se procura, enebriante como o odor de quem se ama.
Um arroz “malandrinho” é um prato triplo: vale por si só, é eficaz e complementar contraponto ao elemento principal da refeição – peixe de preferência, em qualquer das suas múltiplas variações fritas, e é o molho onde ensopar o pão trigueiro e estaladiço, obrigatoriamente presente em toda a mesa nacional.
“Malandrinhos” somos todos nós: com manha e com substância, discretos e eficazes, saborosos e laterais. Muito e aparentemente pouco, pouco ainda que aparentemente muito.

maio 16, 2004

MORTE E VIDA

"Os blogs não morrem. São abandonados (...) para que alguém o descubra" diz o Daniel na sua barriga.
Eu acho que os blogs são criados para que alguém os descubra, depositados com expectativa e paixão num montinho de areia da praia, na esperança de serem recolhidos por alguém que não desista de procurar até os devolver ao autor. Mensagens em garrafas, talvez. A morte dos blogs surge quando essa devolução não acontece e a areia que os cobre (e o Daniel cita) cobriu-os antes dessa morte de autor.
É claro que há excepções. O Mylife nasceu com outras expectativas (ou sem essas expectativas) e naturalmente se foi quando sentiu os objectivos cumpridos. "Naturalmente" para as suas autoras porque ainda hoje me chateio quando me esqueço e dou de caras com a mesma página da semana anterior. Não, este a areia ainda não o cobriu...

maio 14, 2004

PASSING BY

GRAFITI



Tenho, em relação aos grafiti, uma posição dúplice: acho-os um primeiro sinal da falta de respeito pelo outro que esta sociedade vem a alimentar e, como tal, defendo a sua penalização, mas igualmente me deixo entusiasmar por certas intervenções, o seu grafismo, a côr, a visão artística que apresentam. Este exemplo fica a meio caminho. Mas, num Bairro Alto de paredes cobertas com caganitas debiloides, até que constitui uma leve brisa de ar.

OTCHIN SPASSIBA

Организация снимет офисное помещение, 20-25 кв. метров, ЮАО Москвы.
Интернет, линия МГТС.
Без посредников.

Meus caros desconhecidos: agradeço comovido a vossa atenção em me enviar quase diariamente para o mail deste blog mensagens como a que coloquei em epígrafe. Acontece que, da vossa língua-mãe, eu apenas reconheço oralmente meia-dúzia de expressões que me ficaram dos bons velhos tempos em que a vossa pátria era o sol da terra e se fartava de aparecer no pódio da maior parte dos acontecimentos desportivos. Palavras como tovaritch; sovietska saliutska ; pravda; brejnev; molotov; stalin; leningrad (e mesmo destas não garanto a grafia apresentada).
Ora como, nos tempos que correm, não existirão muitas ocasiões para vocês as empregarem nas mensagens que escrevem, creiam que é absolutamente inútil continuarem a enviarem-mas.
Espero que o vosso conhecimento da minha língua seja suficiente para compreenderem este meu pedido. Caso contrário todo este escrito teria sido uma perda de tempo tão grande como a que vocês têm comigo.
Espero que não.
Não mesmo.

maio 13, 2004

INTERVENÇÕES

SEF

Se há coisas que me exasperam quando viajo, o tempo que passo em filas nos aeroportos é a principal. Da minha experiência, o grau de desenvolvimento que iremos encontrar no país que visitamos é inversamente proporcional aos tempos de espera para nele entrar (excluindo os EUÁ onde é directamente proporcional, ainda que no caso deles, dizer só "desenvolvimento" sem especificar, possa significar pouco). Assim, é com tristeza que assisto às filas para o embarque no Aeroporto da Portela. Desta vez, porém, estou mais que solidário com a greve dos funcionários do SEF. Como respondeu um dirigente sindical ao ministro Arnaut, "dar bom nome a Portugal é, para além de cumprir a lei, esperar que o Estado - que a fez - seja o primeiro a cumpri-la".
Nem mais. Da parte de quem tem calotes de várias autarquias deste país vos digo: camaradas e amigos, estou convosco! De calote em calote até ao pagamento total!

FÁTIMA

Notícia da TVI: "Em Fátima, algo parece estar a mudar. A homilia foi interrompida três vezes por aplausos e também a aparição da imagem da Virgem foi saudada por inúmeras palmas."
É. O país está mesmo um Big Show.

maio 12, 2004

EURO-VISÃO

Passei em zapping pela RTP1 e dei de caras com a recta final do eurofestival. Só ver o resumo das 22 canções foi fascinante.
Foi fascinante pensar no mundo de antes de 1989 e ver as figuras que os países do lado de lá da então Cortina de Ferro fazem nesta montra de vaidades empoeiradas. As coreografias pops. As músicas pops. Os penteados pops. Se existe vida depois da morte não tenho dúvidas do ranger de dentes e arrancar de cabelos que todos os comunistas que tanto se esforçaram por construir o paraíso na terra devem ter feito. Pobrezas do capitalismo.
Neste figurino em que o festival se dividiu em dois grupos, foi comovente ver Portugal entre os seus pares: Bielorússia (ou rrússia?) e Ucrânia, Letónia e Lituânia, Chipre e Malta, Andorra e Suiça, Estónia e Eslovénia, Macedónia e Bósnia-Herzegovina. Foi bom saber que a Albânia abandonou definitivamente o secretismo de Hoxha e também envia coleantes morenas para a europa das canções. Foi curioso descobrir que a nossa companheira europeia Grécia, berço da democracia e dos mais atrasados Jogos Olímpicos de sempre continua a obrigar a Macedónia a anteceder o seu nome de "Antiga República Jugoslava da". Imaginam-se a passar a ser conhecidos no emprego por "Antigo Bébé Joquinha Da Sua Mãe Silva" só porque o patrão também se chama João Silva? Foi ainda educativo verificar o crescimento físico da Europa: não só nos estendemos do Atlântico aos Urais como bordejamos o mar Vermelho e o mar Morto. Aguardo ansioso pelo dia em que uma farfalhuda representante da Síria e uma discreta representante palestiniana tomem, por direito próprio, o lugar que lhes pertence na Eurolândia.
Desilusão, só uma e grande: faltou a representante do Vaticano. Não concordam que um celestial coro de querubins a acompanhar uma vitaminada dupla seria um final apoteótico para esta grande gala?

CEMITÉRIOS

Ainda a propósito de cemitérios. Quem terão sido os criadores dos nomes do Cemitério dos Prazeres e do Prado do Repouso?
Como não nos curvarmos à elegância cangalheira de um nome como "Repouso" que finta assim a brutalidade da descida à terra (Mas que perde o pé ao trocar "Jardim" ou "Parque" por "Prado" - será que o seu autor estaria recém-chegado de uma visita a Madrid e tenha pretendido criar um novo museu?)?
Como não sorrirmos perante a ironia de um nome que oblitera a dôr do lugar com a recordação dos bons momentos (é claro que os bons momentos tanto poderiam ser os passados como os futuros que o passamento do defunto proporcionaria...)?
Nesta escolha de nomes parece-me ainda reluzir um retrato óbvio das cidades de onde provêem: o sentir muito terra-a-terra nortenho (chamar "jardim" ou "parque" seria amaricar o produto: aquilo é mais prado que jardim e há que chamar os buois pelos nomes), com a subtil alusão ao campo e ao trabalho e o epicuriano estar na vida dos lisboetas (que - segundo os seus detractores - sempre deixaram o trabalho para os outros)para quem até na morte há prazer.

SUBURBIA

Por ossos do ofício, descobri hoje uma estrada que sobe um dos morros da cintura de Lisboa e, com ela, a envolvente do cemitério de Carnide. Eu já conhecia o projecto (devo dizer que os projectos são, quase sempre, coisas belíssimas que a realidade desvirtua); o que ignorava é que esta última morada de seres humanos convive paredes meias com uma gigantesca sucata. Previdência do legislador que, no Plano Director Municipal, reservou esta área para refúgios de fim de vida, seja ela de carne e osso ou de metal? Se bem que o ar pós-bucólico do lugar, com acessos por antigas estradas de quintas, estreitas e desertas, seja propício a este desterro, parece-me um tudo nada excessiva a convivência - há que preservar uma certa dignidade na morte - e fazer lembrar aos que veem a promiscuidade material que o passar dos séculos trará concerteza às suas futuras ossadas, enfim... é desleal.
Bom, mas Carnide não é subúrbio, é antes refúgio interno e eu comecei a escrever sob o lema do subúrbio e é por aí que irei.
Subúrbio é a amálgama de construções que tomaram conta dos montes e vales de Odivelas e cercanias - como formigas, como exércitos descontrolados de formigas canibais -, e que se avistavam em cada curva da tal estrada, sob o manto, não diáfano e nada fantasioso da bruma vespertina, mistura de gases de escape e vapor de água, que esta temperatura normalmente produz.
Um pavor em contínua expansão. Um pavor visual, claro, mas também um pavor económico: quem habitará tanta arquitectura assassinada? Diminuímos de população, diminuímos de rendimentos e, no entanto, tudo isto se move e cresce. Estarão os nossos iluminados patos bravos a contar com a subida rápida dos rendimentos da população emigrante ou que o russo Abramovitch e os seus sócios descubram o mercado imobiliário da Grande Lisboa como o próximo negócio onde investir?

GOURMANDISES



Já sei. O colesterol and all. A fotografia também não é das melhores. Mas o prazer! O prazer! Onde ficaríamos se perdêssemos Epicuro?

maio 11, 2004

DESILUSÕES

Efeméride oblige, jantar fora ontem. Sendo consensual um encontro com a gastronomia italiana, apressei-me (lentamente que isto de ser mouro e ter entranhado o gosto pelo assistir lento ao rápido frenesim do presente não se perde assim de um século para outro) a tentar reservar mesa no Mezzaluna. Ó Desgraça, ó Maldição!, às seis da tarde informaram-me simpaticamente que chegara tarde e reservas para a noite eram mais raras que a probabilidade de voltar a apanhar o motorista do ministro da defesa a infringir o código da estrada.
Bom. Em desespero de causa recorri à memória e comecei pelos óvios vizinhos de rua. Fechados ou descuidados, não consegui falar com nenhum. Lembrei-me de um Sal&Peppe de boa memória em Campo de Ourique e para lá rumámos à noite.
A casa quase vazia deveria ter servido de primeiro aviso.
No entanto, os começos foram auspiciosos. Guardanapos de pano, fatia de paté (de fígado de aves?) não industrial, pão torrado, manteiga.
Já o menú foi uma perfeita desilusão: Bifes vários, meia-dúzia de massas das mais corriqueiras, muito pouco italiano genuíno, antes a versão feita por portugueses do Italian-International Style. Da carta de vinhos, pela escassez que apresentava (5 tintos, cinco brancos) nem vale a pena falar.
Os pratos apresentaram-se bem confeccionados ainda que a moda de utilizar um prato tamanho XL me deixe de cabelos em pé. Nunca gostei de ver boa comida perdida num vazio de loiça. Fico deprimido. Pela comida e pelo meu estômago.
A depressão final veio com a lista de doces. Três mousses, um doce tipo casa, outras coisas que nem reparei. E o tiramisú? E a panna cotta que tanto me entusiasmou na visita anterior? Zero. Nada. Niente.
Conclusão: experiência apimentada com uma conta salgada. Para prestar um serviço destes, fechem a casa. Poupam o sofrimento a todos. Ou então mude-se o nome para Tia Bjé. Para casa de tias da linha não lhe falta já muito. Tios ordinários e a caminho da interdição de conduzir a comer na mesa ao lado já havia e descaramento para cobrar 4 contos por cabeça por um barrete daqueles também.

WELT OHNE WORTEN

maio 09, 2004

BLOGNEWS

Um.
Noto um certo cansaço na lusa blogolândia. Uma cada vez mais reduzida circulação de olhares pelos escritos dos outros, uma cada vez maior circulação em circuito fechado tu citas-me a mim, eu cito-te a ti, somos amigos, colegas, camaradas de partido. Talvez tudo isto tenha a ver com a repetição de ideias ou tiques, talvez tenha a ver com a transposição das capelinhas nacionais para o mundo internético. Jornalistas que escrevem por aqui e são lidos (e comentados) pelos colegas que, por sua vez, também têm o seu blog e são reciprocamente lidos e comentados. Berloquistas de esquerda e neo-cons lidos e citados reciprocamente. Escritores, poetas e aspirantes a. Há também todos os outros - muitos e muitos deles de muito boa qualidade (talvez de maior qualidade) - e se calhar todos estes olhares seriam merecedores de maior atenção e leitura do que os primeiros. Porque não têm o tempo de antena "no exterior", porque têm um olhar diferente. Porque, sendo a internet um outro espaço, mau seria se fosse apenas a repetição dos espaços habituais. Será por isso que este abrandamento de interesse surge.

Dois.
O Abrupto faz um ano e o mundo embandeira em arco. Confesso que também eu fui seu leitor assíduo. Mas cansei-me do seu autismo e do feroz egotismo - chega a aproximar-se do tom dos diários de Lazarote - das suas palavras. JPP tem a sua agenda e o seu percurso faz-se usando a blogolândia sem servir a blogolândia. Para ser usado sem receber nada em troca já me bastam os dias de eleições.

maio 08, 2004



Gosto da fugacidade destas imagens. A maior parte das vezes são apenas elementos de côr que a nossa visão periférica capta, vá lá saber-se se permanecem esquecidas num canto perdido da memória, só os psicólogos da pub saberão dizer se foram ou não eficazes. Dão trabalho a muita gente e produzem quase sempre patchworks interessantes numa cidade demasiado vazia do trabalho de designers e artistas.

THE UNTOUCHABLE

Al Capone era inatacável. Durante os anos em que reinou, foi impossível encontrar provas de todas as manigâncias que teria arquitectado, de todos os assassinatos que teria ordenado ou perpetrado, de todos os negócios ilícitos que teria organizado e que seriam a fonte da sua fortuna e poder. Até que da mente de algum cérebro burocrata terá brotado a ideia de o acusar por fuga aos impostos. Brilhante ideia. Não pela reduzida pena a que seria condenado face à enormidade dos seus crimes mas porque, prisioneiro, não tardaria a perder os seus negócios, o seu poder. Que melhor castigo?
Porquê esta evocação? Por nada de muito especial. Só me lembrei da história deste intocável quando li a primeira página do Expresso de hoje.
(É claro que isto é só uma história. Toda a gente diz que o jornal é famoso por colocar manchetes que são mais recados mal-intencionados que notícias factuais...)

maio 07, 2004

RENASCIMENTO E BARROCO

Artigo interessante do Prof. Paulo Ferreira da Cunha, para ler com atenção aqui.

"AGORA MOSTRA A PILINHA... QUE GRAANDE!"

Será que sou só eu que tem vontade de enfiar um telemóvel 3ª geração pela boca abaixo daquela pseudo-mãe que, no novo anúncio da TMN, se entretem a escandalizar a senhora da mesa ao lado com a conversa "agora vira de lado, agora mostra o rabinho - lindo!, agora mostra a pilinha - que graande!"
Se eu fosse o filho daquela mãe ficava com pesadelos a noite inteira depois de ver aquela boca a avançar para mim ecran de telemóvel adentro.

PUTING OUT FIRE WITH GASOLINE (v.2004)

O ministro da Administração Interna decide ser franco e confessar que, a repetirem-se as mesmas condições climatéricas do Verão passado, podemos contar com mais uma catástrofe.
Louve-se a honestidade do senhor. Lamente-se a inépcia do costume neste país que não sabe cuidar da riqueza própria.
O presidente da Associação Nacional de Bombeiros (ou equivalente) vem a terreiro gritar aqui d'el rei que declarações destas não são aceitáveis. Por não serem verdade? Por não se terem tomado medidas preventivas?
Não. Porque desmotivam as pessoas.
Bolas pá! A gente já sabe que isto é p'ra rênar, não vale é dizer!!!

TALHO SIM



Não estou totalmente convencido com esta foto mas o apelo dos cartazes da montra que me fez parar e fotografar continuou tão forte que acabei por publicá-la, com uma tentativa de a tornar menos... vulgar.


Este é um degrau ainda mais abaixo da triste realidade da venda de carne em Lisboa - preços baixos, peças ao monte nos expositores, toma lá e venha o próximo. Na montra, em vez do produto, rectângulos em cores berrantes a anunciar valores de saldo.
Já não falando de países do primeiro mundo (sim, a medida da civilização de uma sociedade mede-se pelo respeito que a mesma demonstra pela comida), apresento um extracto dos produtos que encontrei numa "casa das carnes" brasileira:
- Picanha recheada com presunto, queijo e pimentão;
- Filé de costela recheado com quatro queijos e champignon;
- Bife de vazio recheado com linguiça calabresa ou queijo;
- Bife enrolado com bacon;
- Lombo suíno recheado com maçã, passas, nozes e ameixa ou linguiça calabresa.
Uma vez sugeri ao meu talhante que preparasse para venda preparados deste tipo. Pelo olhar que me deitou, fiquei convencido que ele achava que eu queria que o talho fosse à falência.

maio 05, 2004

UM ADEUS PORTUGUÊS

(Post sobre acontecimentos requentados)
Sábado, 1º de Maio. Separadas por quinhentos metros, a habitual manifestação revivalista e uma feira de pirataria. Não sei quantas pessoas estiveram no comício. Não sei qual foi o volume de vendas na feira. Sei que este contraste entre uma comemoração que parece ter perdido o rumo dos tempos e um tempo e um país que encara como natural a busca do falso, um poder que ignora as leis e fecha os olhos à mais descarada ilegalidade, é chocante. Trabalhadores que clamam pelos seus legítimos direitos e trabalhadores que encaram como seu direito ignorar as leis que protegem o trabalho de terceiros.
Há trinta anos, no mitificado "primeiro 1º de maio", ofereceram-me um porta-chaves com uma reprodução tosca de um punho - o punho socialista. Era um óbvia ainda que incipiente tentativa de aproveitar o dia para fazer negócio. Trinta anos depois, as reproduções - agora dos mais celebrados ícones da globalização - aparecem como quase perfeitas e muito mais apetecíveis. Não deixa, contudo, de haver alguma justiça poética nisto tudo: os filhos da revolução vingam-se deste modo inconsciente das maleitas do capitalismo papão. É assim esta celebrada evolução.

maio 04, 2004

REBOQUE TURNS GOURMET (VII)

A propósito de mozzarella di buffala, aqui vai um modo perfeitamente decente de a degustar:

Pomodori freschi circa 10 lavati e cubettati,
una decina di foglie di origano fresco,
una mozzarella di buffala locale (trexenta),
una "pariga" di spicchi d'aglio (pariga = plurale indefinito tipico sardo),
una "pariga" di peperoncini,
400 grammi di pasta tipo rigatoni (ho usato i festonati della de....),
Il giusto tanto di olio "buono",
sale qb.
Mentre l'acqua della pasta va sul fuoco cubetto i pomodori e li metto a saltare allegri su fuoco vivo in una padella dove la "pariga" di spicchi d'aglio e quella dei peperoncini hanno insaporito per alcuni minuti l'olio "buono" (avevo del Villacidro di frantoio), quindi cotta la pasta per circa 6 minuti (a fronte degli otto canonici) la scolo e la getto rapidamente nel
sugo lascio recuperare i minuti di cottura in meno ed infine aggiungo l'origano fresco e la mozzarella cubettata.... mescolo con rigorosa cura e servo......

CLAUDE LARRE, sj

"Et là je m'explique à moi-même pourquoi je n'ai ai pas dévié, bien que je sois allé dans d'autres pays, comme le Japon ou le Vietnam, d'un projet initial qui peut se résumer assez simplement: savoir assez de chinois pour comprendre ce qui, derrière le discours ordinaire, révèle l'enracinement d'un peuple dans son histoire, et cette histoire même sur vingt ou trente siècles."

in "Trois Racines dans un jardin" (La Joie de Lire, Genève, Suisse, 2000)


Andava eu a verificar a grafia de "élan" e dei de caras com os dados biográficos de Claude Larre, um jesuíta "à antiga". Sinólogo, fundador do Instituto Ricci de Paris e da Escola Europeia de Acupunctura, é bem o símbolo desse desejo de saber e de partilhar (alguns dirão desejo do poder e de o exercer) que animou a Ordem desde a sua fundação.
Não que lhes tenha faltado a arte e a manha para construir o mundo segundo a sua visão - o barroco é, em muitas das suas expressões, uma das visibilidades desse desidério, não que muitas das críticas e inimigos que lhes semearam o percurso não fossem justas. Mas quantos se podem orgulhar do seu passado de divulgação e de descoberta como eles podem?

OS 80

Estava há dias a ler o livro com a recolha do textos do Alexandre O'Neil publicados em jornais e revistas e editado pelo Independente quando, por associação de ideias, dei por mim a pensar nos inícios do jornal e de como o mesmo se inseriu no que - agora se vê, à distância de mais de quinze anos -, era um vasto movimento criativo que tomou conta de todos os sectores da sociedade (enfim, portuguesa será exagerar) urbana da década de oitenta.
Corolário da liberdade iniciada após a Revolução, com o que ela trouxe de quebra de tabus e de atitudes censuradas, a geração que ocupou essa década terá sido a que melhor soube aproveitar o seu potencial criativo e criador: na primeira e segunda "gerações" da música popular - GNR, Heróis do Mar, Mler Ife Dada, Jafumega, António Variações (para citar só alguns) -, na "movida" nocturna - a revitalização do Bairro Alto, com o Frágil à cabeça (mas também Os 3 pastorinhos, o Trumps), a imprensa - o Independente e o Público, as revistas de moda (aquele papel couché impensável no Portugal de antanho, a sensação de ter entrado no 1º mundo que tive quando passei os dedos e os olhos pela primeira edição da Elle) -, as artes plásticas - os Pedros, Cabrita Reis e Calapez and all -, o cinema, o teatro e tudo o mais.
Com o final da década começou a chegar o dinheiro da (então) CEE e se a disseminação dessas verbas na sociedade permitiu o aumento do público e do consumo, paradoxalmente também levou a um aburguesamento de pensamentos e atitudes que destruiu parte da genuinidade de todos.
A máquina hoje está bem oleada e feita para ganhar dinheiro. Os artistas também consideram o lucro como parte fundamental da sua actividade. O público, o que cada vez mais quer é pão e circo - nada de grandes provocações que a televisão já ensinou os padrões de gosto a seguir.
Perdemos élan, perdemos motivação.
E se hoje há, incomparavelmente, uma muito maior diversidade e quantidade de oferta cultural e de entretenimento e lazer, paradoxalmente a única frase que me vem à cabeça é "esta apagada e vil tristeza".

FALTA DE MASSA

Devo começar pelo óbvio: é praticamente impossível querer repetir experiências em ambientes diferentes, com sujeitos diversos e matérias outras.
Apesar disso (seria o domingo primaveril? a efeméride do dia? um ataque de revivalismo?) achei que ir almoçar ao restaurante Rodízio das Massas (aí está, escrito com todas as letras - o Planeta turns snitch) poderia ser uma maneira de relembrar o bom jantar de há três semanas atrás, em Florianópolis (mais pormenores, ler aqui). Engano quase fatal (para as memórias e as expectativas futuras de reencontrar em Portugal achados gastronómicos brasileiros fieis): o restaurante não passa de uma falhada tentativa suburbana de reedição de um conceito alheio.
First things first: ainda que composto por 16 variedades de pratos, o menu é fraquinho, apostando nas variações nacionais de massa: o esparguete passado em alho e azeite, o esparguete à bolonhesa, a lasanha com carne, algumas variantes frias, uma inexplicável (é graça, é gracinha do mestre cuca - ou será diminuta imaginação?) junção de pasta com batata palha e pouco mais. Onde se pedia um cuidado particular com receitas que exigem tratamento cuidadoso que evite a (na verdadeira acepção da palavra) "massificação" há relaxe: as doses são apresentadas em gargantuescas quantidades o que, dada a dimensão da sala, provoca o natural arrefecimento da comida - aos últimos a ser servidos fica reservado um semi-frio. E o recurso à pizza para encher menu também não merece respeito. Ainda ambas feitas com farinha e água, pizza é pizza, pasta é pasta. Nada de confusões.
O serviço é descuidado, lasso. Não propriamente mal-criado; apenas molengão, pouco solícito. Dão-se três garfadas e esperam-se mais cinco minutos por outra dose. Assim é fácil perder clientes.
Experiência a não repetir. Para não criar anti-corpos e deixar campo aberto a futuras aventuras em países que respeitem com mais carinho a pia descoberta chinesa que os italianos difundiram pelo mundo ocidental.

maio 01, 2004

SANTA REABILITAÇÃO

Acabo de ler um artigo (ou será uma local?) no Público sobre o arranque das empreitadas de reabilitação de edifícios nas zonas históricas.
Vários reparos às ditas:
- Mais uma vez se cuida da cosmética (se era assim no tempo do PCP no poder, muito mais é agora, no tempo da prevalência da imagem sobre a eficácia) esquecendo a resolução dos problemas de fundo que os edifícios apresentam: o objectivo é reabilitar fachadas e não estruturas;
- Ou muito se mudou nas últimas semanas, ou a mega-empreitada de Alfama é uma confusão legal cujo final - se o Dr. José Sá Fernades se quiser entreter com mais uma acção popular - será igual ao do túnel do Marquês: promove-se uma empreitada de trabalhos diversos baseada em nenhum projecto cujo objectivo é recuperar edifícios (presumo que os projectos ficarão a cargo do empreiteiro o que deixa uma interrogação acerca da aprovação dos mesmos: quando será feita? Antes, durante ou depois da obra?);
- Se, como é anunciado, não haverá encargos para os proprietários, qual é o enquadramento legal das obras? Coercivas não porque estas obrigam ao seu ressarcimento pelo proprietário. RECRIA? Outro? Nenhum?
É o que dá querer mostrar obra sem dominar o assunto.

DE VOLTA

Raisparta a netcabo quando nos pede desculpa pela interrupção e informa que o sinal voltará dentro de momentos.