julho 29, 2004

FEIJOADAS

Querida M.,

Eu sei que uma feijoada é uma outra versão da sopa da pedra, correndo aqui o feijão como a pedra dos advertidos, uma desculpa para enfardamento das proteínas armazenadas nos enchidos, nas alcatras, nas barrigas, nos toucinhos. Mas, para mim, uma feijoada é o feijão e o resto são apêndices mais ou menos dispensáveis, mais ou menos desculpáveis.
E há-os de muitas proveniências, vermelhos, pretos, verdes, castanhos, quase todas as cores do arco-íris, com as felizes ausências do azul e do anil (quem aceitaria comer um prato de azuis vegetais, mais uma provocação daliana que uma proposta entusiasmante?).
E de entre as feijoadas, a que se faz por terras de Vera Cruz atrai-me especialmente. É o caldo mata-bicho para anestesiar o efeito das caipirinhas; o molho de pimenta que se espalha generosamente sobre o monturo oloroso e fumegante; o sumo da lima recém-aberta a amargar o travo; a farofa, nevada, para engrossar mais um pouco; o arroz, solto, solto, a completar o preto-e-branco.
Uma cerveja, estupidamente gelada.
E uma rede estrategicamente colocada na parte mais fresca do jardim, para ajudar ao quilo e ao quieto murmurar dos pensamentos.

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