maio 30, 2006

DESCULPAS


Desde ontem que as palavras do Papa proferidas em Auschwitz me martelam o subconsciente.

Merecedora de uma reflexão longa, a frase "onde estava Deus em Auschwitz" perturba-me.

Perturba-me que seja um jovem "obrigado" a alistar-se nas juventudes hitlerianas a dizê-lo sessenta anos depois.

Perturba-me que um Papa reproduza, adaptadas, as últimas palavras de Cristo na cruz (Pau, Pai, porque me abandonaste?"). Como se só coubesse a Deus impedir a barbárie, o Deus cristão que deu ao homem a liberdade de agir para o bem e para o mal. O Deus de uma Igreja que, no mínimo, se calou na altura, sabendo como teria obrigatoriamente de saber (havia padres católicos na Alemanha nazi, seria impossível nenhum ter conhecimento do que se passava, nenhum ter assistido às noites de cristal, às deportações, aos desaparecimentos, nenhum ter ouvido pelo menos rumores alusivos à "solução final").

Perturba-me que o antigo Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé (uma forma politicamente correcta de designar a Santa Inquisição) tão lesto a condenar e a ameaçar de excomunhão quaisquer tentativas de "esquerdizar" a palavra de Cristo (veja-se o que se passou com os padres agregados sob a "Teologia da Libertação") se mostre agora tão impotente perante os autores e tão desculpabilizante de um povo que, cordeiramente, aceitou (e apoiou e colaborou) tamanha inumanidade.

Este é um texto mal-estruturado. Mas desde ontem que ando incomodado. E tinha de o discutir.

14 comentários:

Anónimo disse...

Sr. Pedro:
Na verdade, mesmo verdade, não houve qualquer ex-comunhão. Essa é uma linguagem que na Igreja já não se usa há muitos anos. O poder de repreender não é lícito? A Teologia da libertação continua a sua reflexão na América Latina!!!
Conclui muito mal. Tudo que seja contra a dignidade humana deve revoltar os cristãos. A história mostra quanto a Igreja sempre esteve ao lado do homem.

Pedro disse...

Sr. Anónimo:
"Sempre do lado do homem". Principalmente do homem judeu, do homem muçulmano...

Anónimo disse...

Sr. Pedro:
Desta vez não entendi mesmo onde quer chegar! Erros cometidos? Nunca foram negados! Mas a descontextualização é sempre anacronismo, que se transforma em "verdade" abstracta.
A defesa da dignidade humana tem sido uma constante! O respeito pela pessoa em todas as dimensões um "ideal", que jamais foi olvidado!

Pedro disse...

Sr. Silveira,
É interessante que pretenda não entender onde quero chegar e depois conteste a minha afirmação. Parece que ficou alguma coisa entendida... Ou o seu foi um comentário desestruturado e pouco reflectido?
E deixe-me dizer-lhe qu de boas intenções está o seu Inferno cheio. è óbvio que a defesa da dignidade humana foi sempre uma constante nas declarações e textos da Igreja Católica. Já ter sido uma constante na sua práctica isso é que me parece impossível de provar, não acha?
Claro que a Teologia da Libertação continua a sua reflexão na América Latina. Assim como a Igreja Católica continuou a sua reflexão nas catacumbas e nas casas particulares nos países em que foi ilegalizada ou proibida de exercer.
Ainda que compreenda a necessidade que um grupo tenha de preservar a ortodoxia defendida, acho que, no caso da religião católica, os seus representantes deveriam defender em primeiro lugar o princípio do diálogo e da compreensão e só depois olhar para os mais comezinhos princípios da sobrevivência política e da manutenção do status quo.
Mas isto é o que eu penso. E quem sou eu para pretender saber mais que os ilustres teólogos que preenchem os assentos e os corredores da Cúria romana?

Anónimo disse...

Sr. Pedro:
Não haverá aqui cruzamento de linhas? A sua resposta última foi ao meu comentário?
Interessante que me pareceu mais humilde, virtude tão necessária ao desenvolvimento do conhecimento...

Maria Madalena disse...

Ora, oremos por este papa jovem hitelariano e velho manhoso que interroga onde estava deus porque sabe muitissimo bem onde estava e o que fazia o colaborante do fascismo á época dos campos de concentração bem como o que fez o seu antecessor, certamente com o seu beneplácito enquanto importante figura da hierarquia da igreja, que beatificou o cardeal croata que abençoava os campos de concentração e os fascistas ustachis! A igreja sempre foi um universo hipocrisias. Lembram-se quando Galileu deixou de ser excomungado? E quando pedem desculpas públicas pelo seu passado, encostem-se à parede, algo irá acontecer!Bom seria era conhecermos todo o mundo de negócios e outras traficâncias que passam pelo Vaticano e não só. Acreditamos, tal como o padre Mário que o maior segredo de Fátima é o cofre das esmolas!Concedamos que os negócios da igreja por vezes também são metafisicos...

Maria Madalena disse...

Ora, oremos por este papa jovem hitelariano e velho manhoso que interroga onde estava deus porque sabe muitissimo bem onde estava e o que fazia o colaborante do fascismo á época dos campos de concentração bem como o que fez o seu antecessor, certamente com o seu beneplácito enquanto importante figura da hierarquia da igreja, que beatificou o cardeal croata que abençoava os campos de concentração e os fascistas ustachis! A igreja sempre foi um universo hipocrisias. Lembram-se quando Galileu deixou de ser excomungado? E quando pedem desculpas públicas pelo seu passado, encostem-se à parede, algo irá acontecer!Bom seria era conhecermos todo o mundo de negócios e outras traficâncias que passam pelo Vaticano e não só. Acreditamos, tal como o padre Mário que o maior segredo de Fátima é o cofre das esmolas!Concedamos que os negócios da igreja por vezes também são metafisicos...

Anónimo disse...

D. Maria Madalena:
A sua linguagem, quer-me parecer, é de defesa e, pela falta de agurmentos, utiliza a acusações gratuitas, sem que nada prove!Não me identifico com este tipo de registo e, se é isso que se pretende, deixarei de comentar estes escritos... Gosto de discutir ideias e não provocações. Sou professor de Filosofia, estudei e ensinei Galileu e não lei assim os acontecimentos. E não sou apenas eu, pois tive ocasião de fazer alguma investigação sobre o assunto...
Sobre o P. Mário, lamento, mas terei de dizer-lhe, nunca houve ex-comunhão, mas suspensão do exercício do ministério sacerdotal. Depois,, sabe que o Relatório de Contas do Santuário de Fátima é publicado, todos os anos, na internet? Costuma consultá-lo? Sabe que, a nível de acção social, grande parte é a Igreja que a exerce?

Pedro disse...

Devo dizer que, se me chamasse Fernando, estaria divertidissimo a assistir de camarote a este diálogo de heterónimos!
Felizmente Fernando era o meu pai e acho que estou em condições de garantir não ter sido eu o produtor de tantas personae nesta caixa de comentários.
Senor Anónimo (já que não gosta que eu lhe chame Marco) deixe lá de se armar ao provocador e escreva excomunhão como toda a gente! Ainda se usasse o termo ex-comungador... tornaria interessante um texto que mais do que refutar o que escrevi apenas pretende contestar.
E não amue com a D. Maria Madalena. Lembre-se que, apesar da Igreja a apontar como pecadora penitente, Jesus Cristo foi o primeiro a não lhe atirar nenhuma pedra, optando antes pelo perdão cristão que tão bem soube cultivar e tão mal soube inculcar nas gerações suas apoiantes que se têm sucedido no tempo.
Olhe que mais do que a humildade, a abertura de espírito é o caminho para a sabedoria...

Anónimo disse...

Sr. Pedro:
Antes de mais, quero informá-lo, uma vez que parece não saber, que a palavra "ex-comunhão" pode ser correctamente assim escrita. Mais, propositada e conscientemente, sempre a quis assim escrevê-la. Não é apenas o gosto de ser diferente, que o tenho e que me dá um grande gozo interior. Nem imagina! Se tem dúvidas, pode perguntar a um professor de português, pois quero crer que não o seja!
Já agora, talvez devido à minha iliteracia, não percebi muito bem a diferença ente refutar e contestar...
Freud diz que os mecanismos de projecção são muito frequentes e não me admira, por isso, que me imagine amuado. Não estou, pode acreditar. Discorrer, discutir, contestar as afirmações descontextualizadas e gratuitas, sempre me deram muito prazer. E faço-o mesmo sem me chatear ou aborrecer...
Vê, nunca me preocupei com a sua identidade.Este meio, para o bem e para o mal, pode jogar com o anonimato, como realmente o tenho feito. Não se ponha a fazer tabelas, porque falha com toda a certeza.
É tão bom utilizar estes espaços para expandir criatividade e boa disposição! Não lhe parece.
Se algum dia nos cruzarmos terei todo o gosto de o cumprimentar e sorrir!
Olhe o positivo da vida!

Pedro disse...

Estava mortinho por eu lhe chamar a atenção para o "ex" fora de sítio não estava? Leia lá bem o que escrevi... eu apenas lhe recomendei que escrevesse "excomunhão" como toda a gente... Mas cascas de banana cada um coloca as que quer e escorrega nas que ignora.
Quanto à consulta de um professor de português... tenho a impressão que a esmagadora maioria deles me recomendaria escrever de acordo com a norma. E a norma - recorda-se? - é aquilo por que a Igreja Católica sempre se bateu e a causa primeira da sua aparição nestes comentários.
Quanto à sua confessada iliteracia (está a ver como a humildade fica bem a qualquer cristão?) talvez ela seja consequência do tempo que perde a descobrir formas inusuais mas formalmente válidas de escrever palavras. Então eu explico como deverá interpretar cada uma das expressões: em "contestar" - que é o que fez até agora - deve ler "mostrar oposição ou contrariedade", em "refutar" - que é o que eu esperava de si - "dar combate por meio de argumentos"! É claro que me pode responder que os termos poderão ser considerados sinónimos. Mas sabe tão bem como eu que sinonímia não é correspondência perfeita...
E veja lá se se actualiza desportivamente! O campeonato do mundo de snooker decorreu há alguns meses... agora é tempo de futebol! Falar de tabelas...
Não me quer dizer onde estava Deus na Alemanha de 39/45?

Anónimo disse...

Nunca me quis mostrar mais sábio que o sr. Pedro. Sou quem sou, sei o que sei, procuro cultivar-me, sem pretensões a ter conhecimentos enciclopédidos...
Em relação ao eventual conselho que diz lhe dariam os professores de português, mais uma vez, lamento, terei de discordar, mas não existe qualquer norma que implique escrever como costuma fazê-lo. Verdade que o costume vai fazendo regra, em muitos casos, como neste. Mais nada que isso! Mas, repare, e só a título de exemplo, já nem em Direito o costume é fonte de lei! Mas,gosto de ser diferente e, conquanto que não prejudique terceiros, é um direito que até costuma ser admitido como natural.
Ao discordar, sempre argumentei, pois é essa a forma como me costumo situar na vida. Frases soltas, descontextualizadas, de quem só lê a história numa perspectiva, etc, etc, etc, é o que mais tenho repetido nestes meus comentários! MAs nunca neguei os seus direitos de "posse" de um blog, mesmo se prima pela superficialidade!!!!!!!!
Deus, durante o holocausto, sempre esteve onde está! Pode rir, que troçar, pode fazê-lo! Deus não deixará de continuar a ser o Deus da liberdade! E também é o Deus da libertação! Mesmo se, tantas vezes, nos aparece demasiado silencioso e, porque não dizê-lo, sob aparência de injusto. Serei ingénuo? Sinto que não! Irracional? Também não me sinto? Pelo menos o acreditar dá-me razões de viver!

Anónimo disse...

Já agora, porque me esqueci, essa da "casaca de banana" não foi mesmo para mim! Quem terá mesmo escorregado afinal?
A respeito dos seus aparentes "trocadilhos" vocabulares, fez-me lembrar o que se vai passando por aí. Às tantas estou enganado, oxalá que sim, mas quer-me parecer que a nossa praça está tão cheia de pretensos doutos, mas que a mim soa a pura verbosidade. Para não dizer pior, porque, às vezes, parece-me verborreia. Manias minhas, decerto!

Pedro disse...

Eu não lhe chamaria irracional. Agora afirmar a sua racionalidade para, logo de seguida, falar em crença...
E, com tanto esbracejar inicial, esqueceu-se do fundamental subjacente às afirmações do Papa: a questão não é onde estava Deus aquando do holocausto (na resposta concordo consigo: estava onde sempre esteve e não tenho dúvidas que o colocamos no mesmo sítio)! A questão é antes como é que um Papa se pode permitir essa pergunta? Porque se a faz considerando que Deus deveria ter intervido fá-lo de má-fé, pois sabe, concerteza muito melhor que eu, que o Deus cristão deu toda a liberdade ao Homem para actuar, não interferindo nas suas decisões. Já se a faz considerando como "Deus" a sua expressão humana - ou seja, a Igreja cristã - fá-lo desresponsabilizando-se a si em primeiro lugar - o que é que ele fez enquanto homem e enquanto homem de Deus para o tentar impedir? - e desresponsabilizando-a de seguida - porque não pergunta onde estava a Igreja, por onde andou o Vaticano nesses anos? Compreende a perturbação da pergunta, colocada assim sem mais nada nas aberturas dos noticiários e nas primeiras páginas dos jornais? É que, por mais que se tente justificar ou esclarecer, neste mundo de sound-bytes, são as "grandes" frases que ficam e o Papa, com a sua inteligência e sabedoria, sabe-o muito bem, pelo que me é legítimo concluir que esta frase não foi dita nem de ânimo leve nem distraidamente - foi dita para ser ouvida e discutida.
E já agora, em relação ao meu suposto riso e troça, espero que o seu comentário inicial não tenha sido feito em jeito de cruzada contra os não-crentes. É que, para além de não poder ter visto isso onde não existia, seria, da sua parte, de uma leveza de análise ainda maior do que a que acusa a este blog.