julho 31, 2004

A NOSSA VIDA...

Não conheço filme mais radical no sentido da fé, nem conheço nenhum outro que me tenha feito recuar tão longe na memória da fé que senti quando criança.

O SAPO

Dizem que, se pusermos um sapo numa panela de água a ferver, assistiremos a um vigoroso pulo do animal para a salvação. Pelo contrário, se o colocarmos em água fria e só depois levarmos a água ao lume, o bicho cozinhará tranquilo.
Pela apatia que reina por este país, impensável de prognosticar há quase 10 anos em frente à ponte sobre o Tejo, há 22 nas greves gerais, há 29 em frente à Fonte Luminosa, há 30, em Abril, parece que nos transformámos no mais confortável dos sapos.

COMO É POSSÍVEL?

Como é possível que o país assista nesta letargia venenosa a mais uma desvastadora temporada de incêndios florestais?
Como é possível que se recolha a um silêncio resignado, indicando que nada vale a pena, nenhum protesto, nenhuma revolta, nenhuma acção?
Como é possível passar por cima das promessas efectuadas pelo poder ainda o fumo dos últimos incêndios do ano passado estava por extinguir?

julho 29, 2004

FEIJOADAS

Querida M.,

Eu sei que uma feijoada é uma outra versão da sopa da pedra, correndo aqui o feijão como a pedra dos advertidos, uma desculpa para enfardamento das proteínas armazenadas nos enchidos, nas alcatras, nas barrigas, nos toucinhos. Mas, para mim, uma feijoada é o feijão e o resto são apêndices mais ou menos dispensáveis, mais ou menos desculpáveis.
E há-os de muitas proveniências, vermelhos, pretos, verdes, castanhos, quase todas as cores do arco-íris, com as felizes ausências do azul e do anil (quem aceitaria comer um prato de azuis vegetais, mais uma provocação daliana que uma proposta entusiasmante?).
E de entre as feijoadas, a que se faz por terras de Vera Cruz atrai-me especialmente. É o caldo mata-bicho para anestesiar o efeito das caipirinhas; o molho de pimenta que se espalha generosamente sobre o monturo oloroso e fumegante; o sumo da lima recém-aberta a amargar o travo; a farofa, nevada, para engrossar mais um pouco; o arroz, solto, solto, a completar o preto-e-branco.
Uma cerveja, estupidamente gelada.
E uma rede estrategicamente colocada na parte mais fresca do jardim, para ajudar ao quilo e ao quieto murmurar dos pensamentos.

julho 28, 2004

NO ARAME

Nada no arame. O post Notas de Viagem XXIV - Texas, USA, é um bom exemplo de um olhar atento numa prosa muito bem escrita. Vale a pena por lá deambular em caminhar pausado.
E, no que respeita ao património subaquático, estou contigo Alexandre: pum-pum-pum submarinos ao fundo!

DEFUNTO

Encontrado nos corredores do Ministério do Ambiente, um ser inanimado de tom cinza. Ainda não foi declarado o óbito por o cadáver ainda não cheirar mal e faltar a coragem política para tal. Alguns funcionários mais antigos lembram-se de o ver em actividade e têm uma vaga ideia de que as suas funções tinham a ver com a protecção da natureza.
Parece que se chamava Instituto de Conservação da Natureza .

O SUMIÇO DA SANTA

Será que o que a velhice nos traz de mais enriquecedor é a certeza de que o mais importante é o prazer?
Pelo menos para Jorge Amado, parece ter sido assim. Não deixando de apontar e criticar a desigualdade social, a injustiça dos poderosos, a cupidez e a imbecilidade do poder, a cegueira de alguma (muita) Igreja católica, o livro é um hino ao prazer, ao sexo, à comida, à liberdade dos sentidos.
Se ridendo castigat mores, muito mais se castigam pelo prazer.
(Está muito calor e eu estou esparramado demais para alinhar uma crónica consistente à volta do livro. Leiam-no. Divirtam-se. E comam e amem. E tornem a amar.)

ALFAMA

Ao andar por Alfama sinto-me como um médico no pavilhão oncológico: por mais tratamentos que invente ou receite, tenho a certeza de que, na esmagadora maioria dos casos, eles serão apenas paliativos ou placebos.

DARFUR

A cara presente da irracionalidade chama-se Darfur. Darfur. Num canto perdido do Sudão no continente mais perdido deste planeta.
Darfur.
O espírito humano nunca cessa de me surpreender. Tão perto do sublime e tão desdenhosamente afastado da abjecção que acontece ao lado.
Darfur.
Não me espanta a barbárie. Espanta-me a indiferença com que a acolhemos.

Links: Darfur: A Genocide We Can Stop
            BBC News


julho 27, 2004

ANDROPAUSA

Deixem-me assegurar-vos que a andropausa é um estado infinitamente mais deprimente que a menopausa.
Não há hormonas (ou falta delas) para culpar.

WHO GIVES A DAMN...?

Há um ano, os discursos eram os mesmos, as mesmas as palavras de circunstância, as análises jornalísticas, os comentários, as imagens, as lágrimas, a devastação.
Há um ano, há dois, há dez.
Bem que o anterior ministro já tinha avisado que, caso se repetissem as condições climatéricas, a tragédia se repetiria.
Aparentemente, o conselho de ministros da semana passada tinha informações metereológicas diversas da realidade. Ou não ouviu Figueiredo Lopes há uns meses. Ou é autista. Ou está-se borrifando. As sound-bytes de hoje já não são verdade amanhã.

julho 25, 2004

julho 24, 2004

ARGHQUITECTURA

Se o Expresso desta vez acertou, Troufa Real terá, finalmente, a alegria de ver nascer arquitectonicamente as duas mais profundas referências que se lhe conhecem na obra projectada: os falos e os barcos.

POEMA DO ANIMAL FEROZ

quando acho que tenho razão sou um animal feroz
sou um ANIMAL FEROZ quando acho que tenho RAZÃO
sou um  ANIMAL quando acho que tenho RAZÃO FEROZ
sou um FEROZ quando ANIMAL acho que tenho RAZÃO
acho que tenho RAZÃO quando sou um ANIMAL FEROZ
sou um  FEROZ quando acho que tenho RAZÃO ANIMAL
tenho RAZÃO  quando acho que sou um  FEROZ  ANIMAL
quando acho que tenho um ANIMAL FEROZ sou  RAZÃO
quando sou um ANIMAL FEROZ acho que tenho RAZÃO
tenho RAZÃO acho quando sou um FEROZ ANIMAL.

julho 23, 2004

MEDO

Esta fotografia é aterradora:


  fonte: TSF

(Não encontro palavra que consiga ser em simultaneo, menos emotiva e mais certeira)

Obrigado António e Epicentro, pela revelação.

UM ADEUS PORTUGUÊS

Há melodias que trazemos no sangue. Que, na primeira vez que as julgamos ouvir, nos surpreendem num dejá entendu que não sabemos identificar. E que estão tão entranhadas nas raízes da nossa emoção que nos elevam a um outro estado. Fazem-nos dançar, sonhar, cantar mas fazem-nos outros, mais nós e mais de nós.
Uma das melodias da minha vida - e que faz, sempre que a oiço, vibrar uma nota escondida, criar um arrepio na base do pescoço que me iriça os pelos dos braços e me deixa um nó na garganta e a necessidade de afastar a comichão que sinto no canto do olho - é os Verde Anos.
Ela explica-me porque sou português.
Não sei se Carlos Paredes, na sua permanente humildade de criador sublime se terá apercebido da grandeza real e simbólica da obra que nos deixa. Sei que terá sempre sentido a satisfação do dever cumprido, um dever que os seus valores sempre lhe ditaram e que sempre cumpriu. Um homem simples. Um homem maior do que a vida.
Que o seu movimento seja perpétuo.

É "DESLOCALIZAÇÃO" ESTÚPIDO!

Não sei se os escrevinhadores de notícias são mal-intencionados ou simplesmente estúpidos. Eu até compreendo que a maioria não entenda o conceito básico da descentralização. Mas se já não bastava uma análise mínima deixar compreender que uma mudança de enderenço de um ministério ou secretaria de estado apenas traduz uma relocalização do poder, agora até Paulo Portas a refere como "deslocalização". Porque é que continuam a trocar as palavras e a levar ao engano que os ouve e lê?


CONTAS

Estou a ouvir o Governo, pela voz do ministro Morais Sarmento a congratular-se pela diminuição do número de incêndios, de sinistros automóveis, de acidentes balneares.
Para uma única semana de trabalho, é obra!

AQUELE ABRAÇO

... de Narciso Miranda a José Sócrates, diz tudo. De facto, não há diferenças.