junho 26, 2006
OH SIM, OS PRAZERES
Lugares de culto hedonista por excelência. Lugares onde a dimensão do túmulo acentua o esquecimento da morte (quem conhece, cem anos depois, o maduro que investiu milhões no vão monumento à sua imortalização?).
(Quem foi o Ernesto de Seixas?)
Se há lugares onde um nome foi bem escolhido, este ultrapassa-os. É um prazer ver tão tolas ambições deitadas por terra pelo pó dos anos
(Quem foi a Virginia O'Donnel?)
É um prazer descobrir tipos tão demonstrativos de uma época.
(Quem foram os Carvalho Monteiro?)
É um prazer descobrir imaginações delirantes na utilização dos cânones arquitectónicos de casas para vivos em lugares de depósitos de mortos.
É um prazer passear debaixo da sombra e do cheiro dos jacarandás.
Encontrar vasos rituais que um ser mais iconoclasta confundiria com penicos.
Saber que há tontos homens que pensam comprar o silêncio da morte. Bah.
junho 15, 2006
LISBOA, PÓS-ANTÓNIO
junho 01, 2006
SIM, SIM...
MOBILIDADE ESPACIAL
Perante a nova iniciativa governamental de criar a figura de "Mobilidade Especial" para os fujncionários públicos considerados excedentários, o ministro das Finanças não considera que esta seja um "convite descarado aos funcionários para saírem da Função Pública".
Se se confirmar que passarão a ter um vencimento equivalente a 87% do seu salário base e a possibilidade de, ao fim de 1 ano, acumularem com um segundo emprego, eu acho que é um convite descarado a que ninguém se vá embora.
BABY FLOP
A taxa de natalidade em Portugal continua a decrescer. Em 2005 foi a mais baixa dos últimos 11 anos.
Há uns meses, comentava entre amigos que uma das múltiplas razões que contribuiam para este facto era a falta de uma política de apoio à família. Expressões de espanto e contestação imediata de dois dos presentes - por coincidência secretários de Estado deste Governo - que não entendiam "o que é que a família tem a ver com o ter filhos".
I wonder.
maio 30, 2006
DESCULPAS
Desde ontem que as palavras do Papa proferidas em Auschwitz me martelam o subconsciente.
Merecedora de uma reflexão longa, a frase "onde estava Deus em Auschwitz" perturba-me.
Perturba-me que seja um jovem "obrigado" a alistar-se nas juventudes hitlerianas a dizê-lo sessenta anos depois.
Perturba-me que um Papa reproduza, adaptadas, as últimas palavras de Cristo na cruz (Pau, Pai, porque me abandonaste?"). Como se só coubesse a Deus impedir a barbárie, o Deus cristão que deu ao homem a liberdade de agir para o bem e para o mal. O Deus de uma Igreja que, no mínimo, se calou na altura, sabendo como teria obrigatoriamente de saber (havia padres católicos na Alemanha nazi, seria impossível nenhum ter conhecimento do que se passava, nenhum ter assistido às noites de cristal, às deportações, aos desaparecimentos, nenhum ter ouvido pelo menos rumores alusivos à "solução final").
Perturba-me que o antigo Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé (uma forma politicamente correcta de designar a Santa Inquisição) tão lesto a condenar e a ameaçar de excomunhão quaisquer tentativas de "esquerdizar" a palavra de Cristo (veja-se o que se passou com os padres agregados sob a "Teologia da Libertação") se mostre agora tão impotente perante os autores e tão desculpabilizante de um povo que, cordeiramente, aceitou (e apoiou e colaborou) tamanha inumanidade.
Este é um texto mal-estruturado. Mas desde ontem que ando incomodado. E tinha de o discutir.
FOR SALE
Este país já morreu mas, aparentemente, somos um povo com graves problemas de olfacto pois ainda não demos pelo mau-cheiro.
Não seria melhor vendê-lo já por um euro simbólico na condição do comprador se comprometer a eliminar o passivo? Aceitam-se rescisões de contrato e alterações da estratégia empresarial.
Centrais nucleares e reflorestamentos maciços com eucaliptos só depois da oferta de um bilhete de ida para a Nova Zelândia para toda a população.
SALOIADAS
Os agricultores queixam-se de o Governo ter alterado as regras a meio do jogo, recusando-se a pagar este ano os subsídios contratados pelo Estado o ano passado.
They should know better. Não é só no Ministério da Agricultura que essa é a prática corrente. Muitas das Câmaras Municipais são useiras e vezeiras nessa esperteza saloia que é encomendar projectos e depois de os ter em construção, declarar que não é bem isso que era pretendido. E os projectistas que alterem porque, enquanto os serviços não estiverem satisfeitos, não há pagamentos para ninguém.
ASSOCIAÇÃO INTERNACIONAL DAS VINÁCIAS
WYSTERIA LANE
maio 29, 2006
CULINÁRIA DE LISBOA, #4 – CANJA DE GALINHA SALOIA
Panaceia lisboetamente universal para a recuperação de qualquer acamado, este caldo encontra-se praticamente em vias de extinção na sua forma original face ao progressivo desaparecimento da matéria-prima essencial: uma galinha “caseira”, criada com amor e engordada com esmero.
Não faltariam na Lisboa secular - na Lisboa de saguões onde raparigas da terra trazidas a servir se deixavam engraçar por marçanos afilhados subindo a hierarquia laboral à custa de muito transportar calçadas e escadas acima as compras de entediadas freguesas, na Lisboa de logradouros feitos quintais de porteiras enjauladas em cubículos insalubres, na Lisboa de recantos roubados a traseiras escondidas – em capoeiras improvisadas onde, entre “cócós” e pedrezes, capões e galarós, poedeiras e pintadas, cresciam e sobravam dignos exemplares para despertar a gula ou anular o fastio de cada um, conforme a ocasião.
Lisboa estava cheia de “criação”.
(E repare-se como os diversos significados do termo evoluíram em conjunto: dizia-se de quem se sabia comportar socialmente que era educado, que tinha maneiras, que era bem-criado (provavelmente pelas canjinhas que a velha criada ou a avó ou a mãezinha tinham preparado na infância ou adolescência, prolongadas por certo, pela mão consciente da esposa burguesa); hoje em dia, queixam-se os mais velhos – perante as ignorâncias da mocidade, os atropelos dos novos-ricos, o desleixo de meio-mundo – de que isto é um país de mal-criados. Pois mal-criados seremos, se nem já criação há em número suficiente para encher de produtos legítimos a mesa de todos nós.)
E a que chave haveria de recorrer o José Maria oitocentista, lisboeta de adopção, para abrir um entediado e cosmopolita Jacinto às delícias do sentir português, senão à inevitável canja?:
“(...) era de galinha e rescendia. Provou e levantou para mim, seu camarada de misérias, uns olhos que brilharam, surpreendidos. Tornou a sorver uma colherada mais cheia, mais considerada. E sorriu, um espanto – Está bom!
Estava precioso: tinha fígado e tinha moela: o seu perfume enternecia: três vezes, fervorosamente, ataquei aquele caldo.
- Também lá volto! – exclamava Jacinto, com uma convicção imensa. – É que estou cá com uma fome... Santo Deus! Há anos que não sinto esta fome.
Foi ele que rapou avidamente a sopeira.(...)”
[in A Cidade e as Serras, José Maria Eça de Queiroz,]
“Canja” era, em similitude com o prato, tudo o que se fazia depressa e bem. Hoje em dia, nada parece ser “canja” neste Portugal que começou a entristecer nas palavras dum outro lisboeta órfão de sopas caseiras e não pára de se desconsolar. De nos desconsolar.
Perante umas serras desertas e uma cidade que de noite desaparece...
1 galinha gorda com miúdos – 1 cebola – salsa – 2l de água – arroz agulha, q.b.
Colocar a galinha na água salgada fria (de modo a que permitir que se desprenda da ave a maior quantidade possível de gordura e sucos) juntamente com a cebola e a salsa. Salgar (pouco! A saúde agradece). Cozer em lume brando, gentilmente, até a carne estar tenra e se desprender dos ossos (atenção aos frangos de aviário: ao fim de uma mão-vazia de minutos já o corpo ameaça desagregação, não constituindo sinal de canja rica. Aliás, ao usar frangos de aviário deve ter-se presente a menor valia que os mesmos oferecem).
Entretanto, cozer o arroz na proporção de 1-4. Deixar ligeiramente al dente e lavar em abundante água de modo a ficar bem solto.
Servir a canja com o arroz, a galinha desfiada e um esguicho de limão.
Duas ou três folhas de hortelã serão bem vindas por quem delas gostar.
NOTA: Pode-se estranhar a cozedura, à parte, do arroz. Preciosismo de quem precisa de mais de uma sessão para processar todo o caldo: se reaquecido, o arroz ultrapassa o ponto de cozedura e transforma-se numa pré-papa desagradável. Acrescentado frio ao caldo fumegante reaquecido não perde qualidades.
maio 24, 2006
GRAÇA RATTON
maio 22, 2006
CONSPIRADOS DESTE MUNDO, ESCREVEI-VOS!
maio 21, 2006
CULINÁRIA DE LISBOA, #3 – SOPA RICA DE PURÉ DE PEIXE
Caldeiradas, há-as em cada porto deste mundo. Variam as espécies, variam os condimentos – varia consequentemente o sabor – mas a essência mantém-se, um guisado de peixes diversos, disponíveis e economicamente acessíveis a um estrato menos favorecido da população como sempre foram os trabalhadores marítimos e agregados familiares.
Poderá a sopa de peixe ser uma variação desta caldeirada (já a hipótese de reciclagem de sobras me parece menos plausível dado o carácter paupérrimo das mesas de pescadores) ou antes um evoluir erudito de mesa burguesa do tratamento popular?
Deixemos o passado a quem se questionar sobre ele. Como Janus, a sopa de peixe aparece no presente com uma das suas duas faces – seja como estrela de mérito próprio em restaurantes “regionais”, seja como o corolário de não sei quantos jantares de peixe sobredimensionados. Confessemos a desilusão que a maior parte das experiências restaurativas traz: a sopa servida é uma água chilra onde bóiam, envergonhados, pequenos pedaços de peixe nos quais subsistem – provavelmente para provar a genuinidade do produto –espinhas e pele originais. Já uma sopa de peixe caseira... daquelas esmeradas ao ponto de nelas uma colher de pau sobreviver em pé... porque é que nenhum dos meus amigos especialistas na mesma me oferece uma num terraço face ao mar, ao fim de um dia de Verão e com a companhia certa?
Para 10 pessoas:
4 kg de peixe – o que houver, coleccionem-se as sobras de outros manjares ou comprem-se frescos, pescada, congro, pargo, ruivo, garoupa, dourada, peixe-galo ou outras espécies de carne dura; 1kg de tomate (ou 400 gr de puré), 3,5 l de água, 3 dl de vinho branco, 2 dl de vinho do Porto seco, 60 gr de cenouras, 60 gr de cebolas, 2 dl de azeite, 500 gr de camarão, 2 kg de mexilhão.
O Caldo. Cozer em água (colocar em água fria) os peixes em postas e cabeças abertas ao meio, com o vinho, cenouras, um quarto das cebolas, sal, um raminho de tomilho e 1 cravo de cabecinha, durante duas horas.
O 2º Caldo. Cozer o camarão em 0,5 l de água durante 3 minutos. Pisa num almofariz as cascas e cabeças e cozer na mesma água durante mais 15 minutos. Coar e reservar.
O Marisco. Abrir os mexilhões no calor (colocar numa panela e aquecer). Retirar das cascas os que estiverem abertos, reservar os maiores e reduzir a puré os restantes. Descartar os que mantiveram as conchas fechadas. Decantar a água da cozedura e ferver com o vinho do Porto durante 20 minutos.
A Base. Refogar a cebola restante, tomate e salsa, tudo picado. Reduzir a puré depois de pronto.
O Substrato. Retirar peles e espinhas ao peixe e reduzir igualmente a puré, juntamente com as cenouras e cebola.
A Preparação Final. Juntar numa panela as águas das diferentes cozeduras e os purés. Ao começar a ferver, acrescentar os mexilhões e camarões e retira-se do forno.
Serve-se com fatias de pão tostadas com manteiga.
maio 19, 2006
PRÉMIO JÁ QUE NÃO TEMOS UM CASINO...
maio 17, 2006
CULINÁRIA DE LISBOA, #2 – SOPA DE CAMARÃO
Sempre viveu de hierarquias sociais, este crustáceo bigodudo, tendo em cada burguesinha dona-de-casa de formação culinária tradicional (“quanto mais pequenos mais saborosos!...”) e em cada rotundo amante de mariscadas (“quanto maiores melhor!!!”) os extremados representantes da espécie consumidora.
Da invenção das máquinas de frio foi o seu consumo um dos principais beneficiados, com a multiplicação de cervejarias e a necessidade (óbvia num país de pesca) de fornecimento de um acompanhamento leve para o líquido vendido.
Já esta sopa parece nascer como um subproduto originado nas sobras de cascas e cabeças. Se ao corpo degustado nas mais variadas preparações correspondia uma existência de invólucros, enriquecida com o sabor concentrado das cabeças alguém terá pensado e melhor feito em recolher tais dádivas numa preparação muito simples e, de certa maneira, económica.
Terá sido uma varina nas noites longas em que o seu pescador andava na faina? Um velho marujo habituado às sopas de peixe e sem outra matéria-prima que não estas sobras para a recriar?
Sendo hoje figura habitual em mesas ricas, renomeada em francês (“consomée”) e acompanhada de aditivos nobres ou cosmopolitas (como o são o vinho do Porto ou as natas), este é a Amália dos caldos, subindo pelo seu talento a íngreme escala social, das vielas de um bairro popular aos salões aristocráticos deste mundo. Que cumpra então esse fado até ao fim – até os mares permitirem a procriação das criaturinhas – e saiba ser visita de privilegiados e menos afortunados, já que, como ao fado, saboreá-la é não mais a esquecer.
Tem a beleza das coisas simples, a preparação desta sopa, e resume-se em três passos: cozer o camarões, preparar um caldo a partir do sabor de cascas e cabeças, engrossar a sopa.
Veja-se então:
1. Os camarões - 750 gr – depois de bem lavados, são cozidos durante 2 a 3 minutos em 0,5 l de água com sal, reservando-se. Depois de arrefecerem, descascam-se.
2. Refogam-se – 2 cebolas e 2 dentes de alho – num fundo de azeite ao qual se juntam as cascas e cabeças, deixando-se apurar. Acrescenta-se – 1,5 l de água – e deixa-se ferver durante 30 minutos. Leva-se ao passe-vite para extrair o máximo de líquido possível o qual se junta à água da cozedura.
3. Numa frigideira, em lume brando e com atenção indispensável, torram-se - duas colheres de sopa de farinha – até atingirem um tom castanho médio. Ao caldo de cozedura e ao líquido da prensagem junta-se a farinha diluída numa pouca de água, mexendo para evitar grumos. Dois minutos depois, junta-se o camarão.
A sopa pode dar-se por concluída caso o colesterol ou outra das deficiências da moda aconselhem prudência e pouco mais que caldos de galinha. No entanto, a variante rica é uma guloseima que merece – pelo menos uma vez! – a capitulação ao pecado da gula: acrescentem-se duas gemas misturadas com um pouco do caldo, mexendo sem parar para não cozerem em pedaços, 1 cálice de vinho do Porto e 1 colher de manteiga.
Servir acompanhado de croutons (versão globalizante) ou quadradinhos de pão fritos em azeite. Ainda que aceitável pelo sabor e pela melhoria dietética, o pão torrado tem a desvantagem de se desfazer rapidamente no líquido, desvirtuando o carácter crocante que se desejava obter.
Da invenção das máquinas de frio foi o seu consumo um dos principais beneficiados, com a multiplicação de cervejarias e a necessidade (óbvia num país de pesca) de fornecimento de um acompanhamento leve para o líquido vendido.
Já esta sopa parece nascer como um subproduto originado nas sobras de cascas e cabeças. Se ao corpo degustado nas mais variadas preparações correspondia uma existência de invólucros, enriquecida com o sabor concentrado das cabeças alguém terá pensado e melhor feito em recolher tais dádivas numa preparação muito simples e, de certa maneira, económica.
Terá sido uma varina nas noites longas em que o seu pescador andava na faina? Um velho marujo habituado às sopas de peixe e sem outra matéria-prima que não estas sobras para a recriar?
Sendo hoje figura habitual em mesas ricas, renomeada em francês (“consomée”) e acompanhada de aditivos nobres ou cosmopolitas (como o são o vinho do Porto ou as natas), este é a Amália dos caldos, subindo pelo seu talento a íngreme escala social, das vielas de um bairro popular aos salões aristocráticos deste mundo. Que cumpra então esse fado até ao fim – até os mares permitirem a procriação das criaturinhas – e saiba ser visita de privilegiados e menos afortunados, já que, como ao fado, saboreá-la é não mais a esquecer.
Tem a beleza das coisas simples, a preparação desta sopa, e resume-se em três passos: cozer o camarões, preparar um caldo a partir do sabor de cascas e cabeças, engrossar a sopa.
Veja-se então:
1. Os camarões - 750 gr – depois de bem lavados, são cozidos durante 2 a 3 minutos em 0,5 l de água com sal, reservando-se. Depois de arrefecerem, descascam-se.
2. Refogam-se – 2 cebolas e 2 dentes de alho – num fundo de azeite ao qual se juntam as cascas e cabeças, deixando-se apurar. Acrescenta-se – 1,5 l de água – e deixa-se ferver durante 30 minutos. Leva-se ao passe-vite para extrair o máximo de líquido possível o qual se junta à água da cozedura.
3. Numa frigideira, em lume brando e com atenção indispensável, torram-se - duas colheres de sopa de farinha – até atingirem um tom castanho médio. Ao caldo de cozedura e ao líquido da prensagem junta-se a farinha diluída numa pouca de água, mexendo para evitar grumos. Dois minutos depois, junta-se o camarão.
A sopa pode dar-se por concluída caso o colesterol ou outra das deficiências da moda aconselhem prudência e pouco mais que caldos de galinha. No entanto, a variante rica é uma guloseima que merece – pelo menos uma vez! – a capitulação ao pecado da gula: acrescentem-se duas gemas misturadas com um pouco do caldo, mexendo sem parar para não cozerem em pedaços, 1 cálice de vinho do Porto e 1 colher de manteiga.
Servir acompanhado de croutons (versão globalizante) ou quadradinhos de pão fritos em azeite. Ainda que aceitável pelo sabor e pela melhoria dietética, o pão torrado tem a desvantagem de se desfazer rapidamente no líquido, desvirtuando o carácter crocante que se desejava obter.
maio 13, 2006
maio 12, 2006
CLASSIFICADOS
Um amigo chegado obrigou-me a abrir esta rubrica de correio sentimental:
Rapaz com as qualidades do costume, um bocadinho passado pelo tempo e com a mania que já perdeu o comboio, procura companhia feminina para conversas múltiplas or whatever.
Este belogue oferece a sua caixa de correio para mediação.
maio 10, 2006
CULINÁRIA DE LISBOA - #1, CALDO VERDE
Pronto, a polémica vai começar. O caldo verde, um prato essencialmente alfacinha? Disparate!...
Sim, era uma vez um camponês minhoto labutador de um ignoto minifúndio das profundezas do portucalense condado que teve a brilhante ideia de migar as folhas da couve acabadinha de retirar à terra (a que, muitos anos mais tarde, outro ignota figura terá dedicado todo o seu amor pátrio, crismando-a para todo o sempre, de portuguesa) antes de as acrescentar ao humilde caldo que borbulhava na panela, criando assim a sopa mais portuguesa de Portugal... (Hum, não, não pega a história, as batatas só chegaram com as notícias do Novo Mundo, couve com puré de castanha...? Ademais quem nos garante que o camponês não seria transmontano ou beirão ou ribatejano ou mesmo galego essa espécie última de português desterrado desde sempre para um país que não é o seu?)
Sendo tarefa impossível e irrelevante a fixação temporal e local das origens deste caldo, não tenho dúvidas em colocá-la no topo da lista das sopas de Lisboa. Como não a colocar? Pois se junta as batatas das Descobertas de que Lisboa foi o centro mercantil às couves das hortas alfacinhas, ligando-as numa untuosa composição que é um deleite para os sentidos, se acolhe como acompanhantes o azeite virgem dos olivais do interior, os enchidos que se fazem de Norte a Sul e a broa do milho nortenho evocando assim os homens e mulheres que demandaram a capital em busca de uma vida mais segura, se busca como leito ideal as malgas de barro, resquícios anacrónicos de um tempo menos cosmopolita e tão mais ligado à terra...
Será pela sua composição um caldo de Inverno, uma fortaleza segura para preparar os corpos para o desconforto da época. Para alguns comensais, atafulhado de pão torna-se evocação e substituto de uma açorda natal. É, no entanto, próprio para todo o ano. Que melhor prenúncio para as sardinhadas estivais?
Relatavam os seus contemporâneos que o caldo verde era a sopa favorita de Fernando Pessoa. Habituados que fomos à anedota do flagrante delitro, causar-nos-à uma certa estranheza esta incursão do poeta fingidor pelo verde em detrimento do tinto. E no entanto... não é de certo modo plausível imaginá-lo, meditando o Quinto Império, debruçado, anónimo e silencioso, sobre um fumegante prato de caldo? O Café “Beira-Mar” , na esquina do Rossio com a Praça D. João da Câmara, há muito desaparecido, era o ponto de referência para os amadores deste prato. Outros tempos e não seria difícil encontrarmos o poeta e seus heterónimos em fila ordeira, à porta, à espera de uma mesa para quatro. Ou Bernardo Soares, desassossegado ao balcão, enquanto tardava a terceira dose da sopa de todos os dias...
Na Lisboa moderna, apesar da sua constituição própria para resistir a todas as agressões, o caldo verde vem sendo maltratado por muitos restaurantezinhos, desregrados herdeiros das genuínas tascas proibidas por decreto europeizante. Rarefeito de batatas, um caldo ralo onde bóiam desengraçados meia-dúzia de fios de um verde pálido indicadores de uma cozedura demorada (quando o que se exige é uma escaldura breve para manter o rijo da couve e a beleza do verde) o caldo verde industrial é bem a imagem da incompetência culinária de que padece quem ao mister se dedica por falta de outra janela de negócio. Não me espantaria vê-lo feito sopa de pacote ou massa de caldo liofilizado. Destas malhas, o Império não teceu.
E vamos ao que interessa: os meios e os modos.
Em primeiro lugar o caldo. Exigência única – não se poupem as batatas, adoptando-se como critério inicial cerca de 250 gramas por cada litro de água. Leve-se então o conjunto ao lume, após o descasque prévio das mesmas, com uma mão-cheia de sal grosso. Após cozedura, com o passe-vite ou usando a varinha mágica (e aqui, do abandono dessa masoquista forma de fazer puré não se ressente o prato), desfaçam-se então as batatas.
Chega então o tempo da couve. Há uma diferença substancial de largura de fio de couve entre o corte feito à mão e o corte de máquina, corte hoje em dia feita em desconhecidas fabriquetas fornecedoras de hipermercados, mas no passado em máquinas presentes bem à vista dos clientes em todas as bancas de legumes nos antigos mercados da capital (as populares "Jocas", veja-se a foto), prova da popularidade deste caldo à mesa dos alfacinhas. O caldo verde é feito de couve cortada muito fina, perdendo o seu carácter único se for usada couve segada cortada em casa mesmo se com o facalhão mais afiado da cozinha. Compre-se pois couve já preparada para o caldo (correntemente denominado, tomando a parte pelo todo, “caldo verde”) e acrescente-se a mesma, após intensas lavagens, ao caldo anterior a ferver em cachão. Espere-se dois a três minutos, no máximo, mantendo a panela destapada e retire-se do lume. Só então se acrescentará 1 dl de azeite por litro de água empregue no início. Mexa-se bem. Espere-se uns minutos que se aproveitam para organizar as fatias de broa e do enchido que serão o contraponto a uma experiência inesquecível. Sirva-se então, em malgas de barro compradas na excursão anual à Feira da Luz ou em incursões às feiras espalhadas pelo país que ainda sobrevivem à globalização e aos plásticos chineses.
NÁ..
CULINÁRIA DE LISBOA - #INTRO
(Em co-publicação com a Alta de Lisboa, inicia-se aqui uma nova série dedicada – como se percebe pelo título – à culinária de Lisboa.)
Capital feita de imigrações desde que o desígnio dos homens face à segurança do espaço e à riqueza da terra a transformou em centralidade de uma região primeiro e de um país depois, Lisboa soube criar uma tradição culinária que, radicando a sua origem e inspiração nos berços da população imigrante, a soube transformar e evoluir, dando-lhe algo de seu, deste sentir de pôres-do-sol junto ao rio, de hortas nos limites das ruas, de colinas pontuadas de limoeiros e nespereiras, da varandas perfumadas com potes de aromáticas ervas, de gentes cosmopolitas mas nostálgicas do torrão natal, de marinheiros saudosos de terra firme e poetas ansiando por portos distantes.
A culinária lisboeta é, na sua esmagadora maioria, uma culinária caseira, uma lembrança dos manjares de meninice e das guloseimas maduras dos jantares familiares. Ao contrário de capitais mais ricas, não buscou nem o brilho de palácios nem o fausto de restaurantes dispendiosos de industriais bem-sucedidos. Soube dosear a riqueza que as redes dos pescadores lhe deixava à beira-rio com a diversidade de legumes que a generosidade dos vales envolventes permitia. Descobriu a magia dos refogados; aproveitou os ensinamentos sobre ervas e especiarias que conterrâneos e exploradores lhe ensinaram. Finalmente, soube não esquecer o legado da miríade de conventos que a sua gula alimentou durante séculos.
De tudo isto se fez uma cozinha que, não sendo regional, é a de uma região onde se concentra cerca de 30% da população portuguesa. E onde, com toda a certeza, novos e velhos, migrantes ou alfacinhas de gema, se reconhecem. Em si contém um bocadinho da origem de cada um. E sendo assim, a cada um pertence também. A nós e ao outro que também é nós.
Capital feita de imigrações desde que o desígnio dos homens face à segurança do espaço e à riqueza da terra a transformou em centralidade de uma região primeiro e de um país depois, Lisboa soube criar uma tradição culinária que, radicando a sua origem e inspiração nos berços da população imigrante, a soube transformar e evoluir, dando-lhe algo de seu, deste sentir de pôres-do-sol junto ao rio, de hortas nos limites das ruas, de colinas pontuadas de limoeiros e nespereiras, da varandas perfumadas com potes de aromáticas ervas, de gentes cosmopolitas mas nostálgicas do torrão natal, de marinheiros saudosos de terra firme e poetas ansiando por portos distantes.
A culinária lisboeta é, na sua esmagadora maioria, uma culinária caseira, uma lembrança dos manjares de meninice e das guloseimas maduras dos jantares familiares. Ao contrário de capitais mais ricas, não buscou nem o brilho de palácios nem o fausto de restaurantes dispendiosos de industriais bem-sucedidos. Soube dosear a riqueza que as redes dos pescadores lhe deixava à beira-rio com a diversidade de legumes que a generosidade dos vales envolventes permitia. Descobriu a magia dos refogados; aproveitou os ensinamentos sobre ervas e especiarias que conterrâneos e exploradores lhe ensinaram. Finalmente, soube não esquecer o legado da miríade de conventos que a sua gula alimentou durante séculos.
De tudo isto se fez uma cozinha que, não sendo regional, é a de uma região onde se concentra cerca de 30% da população portuguesa. E onde, com toda a certeza, novos e velhos, migrantes ou alfacinhas de gema, se reconhecem. Em si contém um bocadinho da origem de cada um. E sendo assim, a cada um pertence também. A nós e ao outro que também é nós.
maio 08, 2006
UM TIRO NO PORTA-AVIÕES
maio 04, 2006
LUA
José António Saraiva, ex-director do Espesso e colunista político que raramente tinha dúvidas mas muito se enganava, apresentou ontem à comunicação social e centrais de publicidade o projecto de um novo semanário.
Com nome de detergente e um inconfessado complexo de Édipo (cobiçando a mãe Fama&Fortuna ao pai Balsemão), o Sol apresenta na estrutura accionista, na direcção, nos quadros redactoriais, uma ampla e esmagadora maioria de antigos funcionários do jornal de referência dos fins-de-semana.
O que me causa perplexidade é ninguém se ter preocupado com a seguinte questão: se Saraiva foi varrido para uma prateleira superior no seu antigo jornal face às visíveis quebra de audiência e esgotamento de formato e conteúdos que o mesmo apresentava, quem é que no seu perfeito juízo acreditará ao ponto de investimento que um projecto feito pelas mesmas pessoas, com as mesmas ideias e as mesmas soluções obterá um resultado diferente? Não faz Semanários ou Independentes quem quer e muito menos quem por eles foi derrotado nos primeiros anos...
(Claro que se pode ler a história ao contrário: o Expresso ainda cá está e os outros dois estiolaram. Mas nem assim a comparação se torna favorável para a futura Nuvem...)
maio 01, 2006
abril 27, 2006
abril 26, 2006
O PÓS 25 DE ABRIL
abril 24, 2006
GROWING PAINS
Para descobrir o Norte, basta procurar o lado para onde cresce o musgo.
Se ao menos eu soubesse com que é que o musgo se parece.
Se ao menos eu soubesse com que é que o musgo se parece.
abril 22, 2006
FUTEBOL CLUBE MURCÕES
Uma cavalgada de grunhos com os relógios adiantados invade o campo do Penafiel um minuto antes do fim do jogo e despe metade dos jogadores do seu clube.
Que pena isto não ter acontecido há dois anos, a tempo do Euro2004. Valia mais pela divulgação do país que mil anúncios delicodoces do defunto ICEP.
abril 20, 2006
YAWN
Amanhã é sexta e depois fim-de-semana.
E depois segunda e logo a seguir feriado o que é o mesmo que ser outra vez domingo.
E depois segunda outra vez e logo a seguir Maio.
E são logo as férias e depois um Agosto a morrer langoroso. E Setembro e um novo ano prós putos. E mais segundas e domingos e meios da semana e fins-de-semana. E mais uma passagem de ano e mais férias e carnavais, páscoas, segundas, terças, quartas e sábados à noite e domingos aborrecidos.
E ainda um outro ano e mais outro e ainda outro.
E eu sem dar por isso e a ver o tempo lá atrás, passado, aborrecido, uniforme nas memórias e na realidade.
abril 19, 2006
PLETNEV : GULBENKIAN
Magnífico concerto, mágico intérprete.
Mas a melhor peça foi a sonata para embrulho de rebuçado e mãos desajeitadas interpretada por uma autista senhora da audência sentada no palco.
(Sim, a crise económica da Gulbenkian já chega a isto: bilhetes extra para o palco para cobrir o défice. Eu, que tive o privilégio de poder aquelas mãos em acção a menos de 10 metros, só posso dizer: que continue a crise!)
abril 13, 2006
PAPEIS
Dos deputados faltosos (ver post anterior), cinco pertencem ao CDS/PP. Achando as ausências naturais, o presidente do grupo parlamentar do partido, justificou-as: um estava ausente em representação da Assembleia, fulano foi pai, sicrano, por coincidência, também ...
assustei-me
por um momento, julguei que ia dizer que os outros dois tinham sido mães.
VERGONHA, AUTISMO, VERGONHA
abril 12, 2006
NOTÍCIAS DE ITÁLIA
RÖSSEL
(casa onde cresceu a minha avó; Coswig, arredores de Dresden)
Terão sobrevivido à guerra? Existirão ainda, ignorantes do ramo português que ainda perdura? Mistério tão grande como todas as perguntas que a guerra deixou sem resposta, é saber a história do meu lado alemão, antes e depois da minha avó.
E não será esta ainda incipiente rede que mo revelerá. No entanto...
ICH SUCHE IHNEN RÖSSEL FRAUEN UND MÄNNER VON DRESDEN
EM LOUVOR DA MULA ELECTRÓNICA
abril 07, 2006
AVÓS
Não há grandes personagens na vida; é a gente comum que transporta consigo o material de que são feitas as grandes histórias.
A minha avó materna era tão comum que, passados dez anos sobre a sua morte, poucos dela se lembram. Restam, para além das memórias familiares dos que lhe sobreviveram, breves minutos num filme resgatado ao esquecimento pela ressurreição dos DVDs, alguns cartazes num empoeirado canto do Museu do Teatro. E fotografias, esparsas fotografias escapadas à tarde de cristal em que sucumbiu o recheio da casa que sobrou das partilhas.
Não sei se a vida da minha avó dava um filme (talvez um filme indiano, diria o perfeito animal) mas sei que as inúmeras voltas que insistiu em marcar na sua existência, dão para muitas horas de deslumbrado ouvir.
E, para mais não servisse, serviria para me fazer aprender que, por mais justas e certas que achemos as nossas decisões, correremos sempre o risco de as ver criticadas por quem por elas foi afectado.
abril 05, 2006
PEQUENO CANTINHO DA INUTILIDADE
1. Se o Barcelona é a melhor equipa de futebol do mundo, coitado do mundo...
2. Pronto. O Orelhas tá com elas murchas.
NOTA FINAL - Como se vê se num jogo de futebol uma das equipas é portuguesa? Quando, no momento em que o guarda-redes adversário marca pontapé de baliza, se ouve o coro bem orquestrado "filhooooo-da-puta!!!"
BARCELOSOS
O museu do FCBarcelona é o terceiro mais visto de Espanha, a seguir aos museus do Prado e Guggenheim.
Numa cidade onde moram, entre outros, o museu Picasso, a Fundacion Miró e a Fundació Tàpies, ser o museu de um clube de futebol o espaço museológico mais procurado diz-nos muito sobre o seu povo. Diz-nos, por exemplo, que é considerado ser-se mais nacionalista gostar do clube de futebol da terra do que apreciar Picasso.
PRIMACHUVA
abril 04, 2006
"TODOS OS ESFORÇOS ESTÃO A SER FEITOS PARA ELIMINAR A EPIDEMIA"
... diz o ministro e eu acredito. Porque não haveria de acreditar, conhecendo a terra e os homens e tendo estas imagens como prova?
No entanto, algo me diz que esta profilaxia não será mostrada à delegação que se apresta a visitar o país irmão, carregada de euros e perspectivas de negócios...
(NOTA: As imagens são verdadeiras e tiradas in situ. Como noutros tempos, não acredito que fizessem muito pela saúde do autor se descobertas antes de tempo. Felizmente que há a santa internet e a maior parte da gente anda mais interessada em fazer pela vida do que pelo regime)
março 30, 2006
março 27, 2006
AMANHÃS QUE CANTAM
Entre uma equipa com um treinador holandês, metade dos jogadores brasileiros e um dono luxemburguês e outra que, depois de ter vindo buscar o segundo melhor jogador português depois de Peyroteo por meia dúzia de tostões lhe atirou com uma cabeça de leitão por se ter mudado para Madrid pelo preço acordado no contrato que venha o Diabo e escolha.
Eu - que defendo o espectáculo - desejo que ambos marquem muitos golos na própria baliza que o Luisão faça uma plástica à fronha do Ronaldinho com uma das cabeçadas em que se especializou que o Moretto repita duas ou três das fífias com que tem brindado os adeptos desde que veio do Alentejo que o Simão continue amuado e finja que já não tem força nas pernas que o Messi se atire para a piscina várias vezes e o árbitro acredite sempre nele e que os No Name resolvam invadir o campo para a UEFA o interditar até que o Orelhas resolva abrir os cordões à bolsa e mande pintar as fachadas do estádio.
Ah, só não me dêem cabo do Deco que, assim como assim toda a gente acha que é português e, portanto, pode ser que nos consiga ajudar naquela coisa do caneco na Alemanha.
BURLA AGRAVADA
HA(R)MAS
março 24, 2006
EU BEM SEI PORQUE NÃO FIQUEI EM CASA (A VER A RTP)
(Homenagem singela deste planeta ao grande artista da meia-final Porto-Sporting para a Taça de Portugal - um grande bem-seja!)
março 21, 2006
BUS RIDE (II)
Ainda a temática do post de há uns dias atrás: fontes bem-informadas garantem-me que esta geometria é impossível de garantir na realidade.
Prezando eu tanto a geometria das fontes contactadas, afirmo sob compromisso de honra: apesar da perfeição euclidiana que tão violentamente agride quem circula incautamente atrás de tão urbano veículo, neófito, serão sempre os sentimentos a sobrepor-se à estética. Sempre.
Prezando eu tanto a geometria das fontes contactadas, afirmo sob compromisso de honra: apesar da perfeição euclidiana que tão violentamente agride quem circula incautamente atrás de tão urbano veículo, neófito, serão sempre os sentimentos a sobrepor-se à estética. Sempre.
março 16, 2006
PECANINO
O Petit faz-me cada vez mais lembrar o Paulinho Santos, essa grande glória artística do ludopédio nacional. Bom a atacar, melhor a representar...
março 15, 2006
BUBBLE CUNHA
Dias da Cunha ao Record: "Se soubesse o que sei hoje nunca tinha saído de presidente do Sporting"
Pedro Cruz Gomes ao Planeta Reboque: "Se soubesse o que sei hoje, por mim nunca tinhas ido para presidente do Sporting"
Pedro Cruz Gomes ao Planeta Reboque: "Se soubesse o que sei hoje, por mim nunca tinhas ido para presidente do Sporting"
BAH
Estou farto de palavras. As palavras são cancros que corroem, desgastam, transmutem, iludem. As palavras são más companhias, ideais próprios que se vendem como alheios. As palavras são um desperdício, um nojo, uma ilusória tentativa de negar o inevitável. Návea, réstea, nada, óbvio, tudo, pouco, tanto, apenas, até, quanto, ontário, otava, ota. Zeros, zeros, zeros.
março 10, 2006
A CIDADE IMAGINADA (VI)
Um dia, quando as cicatrizes não forem mais do que pequenas saudades na memória dos mais velhos,
Haverá viajantes que
levando consigo e partilhando objectos tão do passado quanto este, linhas tão solenemente expostas, modos de ver e construir o espaço que, de tão postos em desuso, serão absolutamente referenciais.
quando há muito se tiver extinguido o ruidoso soerguer das relíquias voadoras que costumavam ser usadas paras transportar as gentes entre dois pontos do Globo,
quando as oposições entre cidade e subúrbios, centro e arredores, rede ou radialidades tiverem sido substituídas por neologismos mais consonantes com as teorias vigentes.......
Haverá viajantes que
- passando pelo sítio que foi da Alta de Lisboa -
repetirão os mesmos gestos de hoje
de apreciação e desejo
levando consigo e partilhando objectos tão do passado quanto este, linhas tão solenemente expostas, modos de ver e construir o espaço que, de tão postos em desuso, serão absolutamente referenciais.
MARQUÊS MAS REPUBLICANO
março 08, 2006
EM FRENTE PARA O PARITARISMO!
Segundo o Público , o PS apresenta hoje na AR um projecto de lei que visa garantir quotas mínimas de representatividade por sexo nas listas eleitorais. Sempre interessado nestas coisas, o Planeta pergunta porque há-de o sexo sobrepor-se a outras características humanas e propõe desde já vários parâmetros para uma constituição das próximas listas eleitorais com objectivos paritários:
março 06, 2006
CATALOINS
março 03, 2006
TRADUÇÃO
HERE'S TO HAPPY ENDINGS
Naõ gosto de melodramas, prefiro filmes tolos com finais felizes que me alienem a tristeza habitual.
Abro uma excepção para a maravilha de beleza e sensibilidade que é o "Hable con Ella".
Mas, a bem dizer, há um final feliz, como se todo o futuro amor entre Marco e Alicia só possa acontecer através da imolação de Benigno.
Estando farto de imolações pessoais não será já tempo do destino me fornecer um final assim de amor e entendimento?
(Em tempo: se estamos a falar de melodramas porque é que este post não haveria de ser lamechas?)
fevereiro 19, 2006
A fé das pessoas comove-me. Há uma parte da minha infância , do misterioso, do deslumbramento perante o milagre que retorna e, por momentos, anula o ser excessivamente racionalizado que sou. A emoção a derrotar a razão.
Aprecio pessoas que têm fé. Que norteiam a sua vida por essa bússula de certezas. Têm um foco. Não desanimam. Apesar de todas as contrariedades, têm um objectivo que os orienta.
Não posso deixar de constatar que, extensiva que é a todas as religiões, também falamos de pessoas com fé quando referimos os integrantes das violentas manifestações contra as caricaturas de Maomé ocorridas nas últimas semanas nos países muçulmanos.
O que me faz pensar em qual seria a reacção das centenas de milhar de pessoas hoje reunidas em Fátima se um bispo mais colérico resolvesse, por exemplo, alertar de cima do púlpito, para a blasfémia que constitui um filme como o "Je Vous Salue Marie". Ou uma eventual caricatura da irmã Lúcia e dos restantes pastorinhos . Há por aí um não-crente à mão?
fevereiro 17, 2006
DESENCONTROS
fevereiro 16, 2006
SPORT'OING! (III)
SPORT'OING! (I)
O empresário Diogo Vaz Guedes, actual presidente do conselho de administração da «Somague», está a ser pressionado para apresentar a sua candidatura à presidência do Sporting, segundo noticia a Renascença. [abola.pt]
Espero que ganhe. Com um bocado de sorte, daqui a uns meses está a vender isto a um clube grande de Espanha desejoso de conquistar o mercado ibérico.
fevereiro 15, 2006
PIRILAULAND
A deriva para o politicamente correcto que se acentuou em Portugal desde o consulado Guterres e tem a sua expressão gloriosa nas recentes declarações do estimado ministro dos Negócios Estrangeiros (ai a culpa cristã que ataca tão tarde!!!) - as caricaturas são uma ofensa mortal a quem, coitado, tão solidariamente vive com as suas conterrâneas e com o resto do mundo e é o Ocidente quem se deve vestir de burel e, de corda ao pescoço, ir de joelhos a Meca (a Teerão? a Khartum? a Cabul?) pedir perdão pelos erros dos antepassados - sofreu - na aparência - um revés em Lisboa com a conclusão da trilogia machista que coroa o Parque Eduardo VII.
Iniciada com a construção do parque com a erecção (na verdadeira acepção do termo) de dois falos duplos coroados com douradas palmas de louros (repare-se na mensagem subliminar: as gloriosas e heroicas pilas portuguesas valem por duas!), a homenagem continuou com o monumento ao 25 de Abril: uma pila (ainda que recusando as proporções johnholmianas do Estado Novo) em permanente ejaculação, fortemente apoiada na sua erecção por dinâmicas escoras (dizendo: o pau revolucionário português está sempre em pé, sempre em acção, sempre em orgasmo) e tem agora o seu apogeu com a implantação do mastroide que suporta a bandeira nacional (que melhor propaganda? o pau português é grande e bom e desfralda-se ao vento faça quente ou faça frio seja Verão ou seja Inverno - a prick for all seasons (adoptando desde já este blog o choque tecnológico de ir falando em inglês).
Quem olha do Marquês, o que vê? Uma floresta de falos, a encimar a cabeluda colina do parque. Uma pirilauland. Propaganda, homenagem, vanglorice. País de machos latinos que somos.
Ou isso ou, considerando os costumes nocturnos da zona, tudo ser antes uma bem urdida conspiração da nossa terceira via para os publicitar.
CUSTOS DO DESENVOLVIMENTO
Temos de ter dinheiro para pagar o telemóvel, a televisão por cabo, o aquecimento central, o carro, a prestação da casa, os cds, os dvds, as férias, as roupas (os sapatos! os sapatos! os sapatos!) e todas as outras porras que a publicidade, o boca-a-boca, o exemplo de amigos e viznhos nos convence que é absolutamente necessário ter.
E depois queixamo-nos da concorrência desleal dos trabalhadores dos países subdesenvolvidos que ganham um centésimo do que nós exigimos de salário. Cá chegarão.
Ou lá chegaremos.
fevereiro 12, 2006
QUE MALFICA
Decerto espicaçados no seu orgulho de pertencerem a tão notável clube depois das tareias averbadas nas duas últimas jornadas, os jogadores do clube da 2ª Circular sacrificam as consensuais regras de fair-play e insistem em continuar a jogar com um adversário caído no chão por lesão. Da jogada surge o terceiro golo e o comentador rejubila com tão notável sentido de companheirismo.
Até parecia o Marcelo com a chegada do capitalismo.
NOTAS DA SEMANA QUE PASSOU
VÁRIAS CARICATURAS explodiram pelo mundo árabe. Mortos e feridos q.b.
FREITAS DO AMARAL cada vez mais politicamente correcto, ataca os autores dos cartoons que ninguém viu como uma ofensa intolerável à fé dos muçulmanos. Aparentemente, esqueceu-se de que, quando mais uma pessoa se baixa...
A SONAE ANUNCIA UMA OPA sobre a PT e toda a gente rejubila. Dir-se-ia que a anunciada intenção de desmantelar a maior empresa nacional é coisa de somenos. O facto de uma sucursal de um banco espanhol se alcandorar ao topo à conta desta compra também não causa preocupações aos comentadores nacionais. Ironia das ironias, Belmiro de Azevedo faz da conquista do monopólio da rede de telefonia móvel - que tanto contestou até agora - o principal motivo para a compra do gigante. Marcelo Rebelo d Sousa rejubila na RTP - é a chegada do capitalismo puro e duro a Portugal, diz seráfico . Olha que bom.
fevereiro 07, 2006
BELÉM, ESTUDO EM VERMELHO
A CABEÇA À RODA DE LISBOA
fevereiro 06, 2006
CCB
E como ele, nos tornaremos em fantasmas ocupantes de pedaços de papel desbotados em albuns de família. Pior. Combinações binárias nos arquivos informáticos de ficheiros obsoletos.
MNARQ
BELÉM
Deixando a esmagadora maioria dos turistas descansados na sua perigrinação trinomial Jerónimos-pasteis-Coches, o Museu Nacional de Arquelogia pouco faz para os chamar a si. É certo que não abundam no seu acervo peças que, em alternativa às "enormidades" que os principais e mediáticos museus do mundo oferecem, os façam mudar de percurso.
Mas, para nós, humildes descendentes dos vários povos habitantes primitivos da Península, pode ser uma oportunidade de nos confrontarmos e reflectirmos sobre as nossas raízes. E de, ao menos uma vez, vermos a realidade das peças e não a sua reprodução num livro escolar.
fevereiro 05, 2006
MUDAR DE VIDA
Vou mudar de hábitos: passar a acordar às 10 durante a semana e às 8 ao fim-de-semana. Lisboa - como todas as cidades - nas primeiras horas das manhãs de Domingo é absolutamente deliciosa: toda para nós, uma lembrança dos Agostos de há vinte anos, antes de férias repartidas e crises de tesouraria.
Vou partilhar um segredo: a esplanada do CCB, apesar da bica a 67 cêntimos é um local de eleição nestas alturas - nem criancinhas berrantes, nem lotação esgotada, nem excesso de população (a população de fim-de-semana é terrivelmente pretenciosa: classe média bem-pensante e igualmente vácua).
Vou partilhar um segredo: a esplanada do CCB, apesar da bica a 67 cêntimos é um local de eleição nestas alturas - nem criancinhas berrantes, nem lotação esgotada, nem excesso de população (a população de fim-de-semana é terrivelmente pretenciosa: classe média bem-pensante e igualmente vácua).
NOW IS THE WINTER
fevereiro 04, 2006
A CHACUN SES FAUVES
Quantos assistentes teria em Portugal um jogo de exibição entre duas equipas da 2ª divisão inglesa de futebol? Seguramente menos que o número de entradas já vendidas no Museu do Chiado para a exposição "O olhar Fauve". E teria - seguramente - uma muito menor exposição mediática. O que, num país que pára durante uma semana a discutir se os energúmenos que partiram os vidros do carro do treinador da equipa de futebol do FCPorto pertencem ou não à claque do clube, diz muito. Do país e da relativa importância das coisas.
A exposição pomposamente anunciada como "O" olhar Fauve (não "UM" olhar, não "ALGUM DO" olhar) tem muito de jogo de exibição de uma selecção de estrelas da segunda divisão francesa do início do século vinte. E é uma semi-falácia. Porque para quem não conheça antecipada e minimamente a obra dos grandes-mestres fauvistas esta mostra ensina que "O" olhar fauve não passa de um aglomerar de olhares menores e pífios, de autores desconhecidos e temporalmente espalhados (vejam-se as datas das obras) desde o início do século XX até quase ao início da II Guerra. Quando o fauvismo foi muito mais do que isso. Quando se constituiu como evolução do impressionismo quanto ao uso da côr como construtora de espaços e ambientes. Quando foi percursora e enunciou questões e propôs soluções que viriam e desembocar no cubismo. Onde estão os grandes trabalhos de Matisse? Não nas duas obras menores que, perdidas, se escondem no meio das outras menores obras (salva-se uma tela de Renoir - merecia melhor companhia).
Será importante esta apresentação em Portugal? Sim, apesar de tudo, dada a rarefação de referências do período nos museus portugueses e a ausência de verbas, de espaços e de condições para aqui trazer as grandes obras do período. Mas devidamente enquadrada e devidamente relativizada a sua importância - trata-se de parte do acervo de um museu de uma cidade de província (enfim, mesmo assim com maior quantidade e qualidade de obras que os museus de arte moderna portugueses), servindo mais para colmatar as lacunas sobre o período que a visão das obras mais importantes sempre deixa. Só.
Sem mais funfuns nem gaitinhas.
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